quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Quando chega o fim da festa

Por: Alberto Silva

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Acabou o jantar. As taças e os talheres de ocasião são recolhidos. Alguns persistem em permanecerem sentados à mesa, mas a verdade é que um ciclo se encerrou. Um momento que pode ser de êxtase ou de melindre se dissipou alegremente como gotas de orvalho que evaporam e formam nuvens. A mesa tinha flores, das mais belas, orquídeas e rouxinóis. Colhidas na efervescência primaveril. A toalha de mesa era de renda. Renda branca, sutil e aparentemente transcendente. O vinho era divino, sublime. A língua ao cristal formava o perfeito acompanhamento das sensações etéreas. Os que se levantam talvez não se deem por satisfeitos, os que se ficam manifestam essa vontade um tanto oculta. Cerrada em chaves que não revelam o estupor magnânimo do encontro e da oração antecedente, cercados por obras de arte cálidas nas paredes.

Embora se relute em relação ao começo, imprevisível e repleto de mistificações, é quase certo não se desejar o fim. Anseios voluptuosos, sorrisos, contagens e recontagens de estórias que de outro modo não chegariam aos ouvidos. São as confissões de uma mesa que se revelam, desnudando aquela autenticidade reclamada pelas revistas e pelos panfletos. Oh, my lord.  Quanto requinte da parte dos anfitriões e ao mesmo tempo quanto desbunde daqueles que vieram. As janelas são de terra. Os móveis de ar. Os sentimentos de fogo. As trapaças dos larápios, feitas de água. Silêncios à parte elas e eles cochicham como se não houvesse amanhã. O retrato da juventude, da estultice ou da velhice é essa certeza de que o sol que veio hoje bem provavelmente não irá aportar amanhã.  Verdade não para as pessoas, mas para os olhos – os teus, os meus, os nossos.

A graciosidade esconde o escândalo da forma. Elas e eles vestidos, como a tábua onde se puseram o carneiro morto, mal passado, com escorrimentos de sangue; e a salada de comigo-ninguém-pode, venenosa, fatal. Elas e eles onívoros, como vós podeis ver nesse relato, mal dado, da escória palatável. Virás ou não, traidor? A senhorita ou o senhorio sentam embasbacados. Enganados. Oh, my darling. O que uma promessa não cumprida traz a um ser humano. Ai desses que viveram de perto o escárnio se não fosse a prosa literária, a conversa aprumada dos perfumados ou difusores de odores que com a caneta na mão, o tinteiro, e um cinzeiro, constroem a espiritualidade do nosso tempo. Maldito seja quem não chegara a hora marcada pelo ponteiro. Perderam a sobriedade dos anônimos correspondentes, foram tocados pela luz mágica do arco azul.

Entre lagartos, cobras e salamandras, eu sou réptil versátil. Camuflagem literal. Ditada por não sei quem. Explicada acho que para lá. Os óculos escuros escondem a poeta. Os cabelos cacheados a portentosa ghost-writer. O franzir as sobrancelhas a atriz de teatro que não se cala, embora se bata, e rebata. É um jogo contínuo, como o xadrez de Bergman entre a morte e o cavaleiro medieval. É ciclo que se alimenta das dores e sinceridades de um processo doloroso, que me atiça o verniz da incomplacência.  É raio colorido, que o vômito da incerteza contempla nas suas linhas delicadas. É o buraco negro, abafado, no qual eu entro e grito, em uma dimensão alhures das felicitações. Jorram os jatos da esperança nos quartos do segundo andar. Embaixo os bobos, conscientes ou não das suas parvoíces monumentais, perecem ao som de Bach. Ah, se eles pudessem se ouvir.

Tudo se dá no mesmo espaço, tudo é transe, tudo é eclético. A efusão das performances formiga como uma planta espinhosa na qual pusemos o pé. Seco, entalado, desalmado está esse reclamo da garganta. Esse impulso de abrir as portas e dizer aos meus convidados que o término já é chegado. Tem deles que rolam nos tapetes, outros pululam como camelos exóticos, a despeito do fato de que necessitam de reposição. Aquela madeira transformada em apoio é rito sagrado. O espantoso ir e vir vem depois do cumprimento das formalidades. Quando roçam as mãos, quando toca o piano. Despertam-se as sensações para depois exacerbá-las. Somem uns. Aparecem alguns. A separação nunca é completa. Tudo aquilo que é festa é passível de se transformar em um conto. Regado de etílicos, devaneios e tranças.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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