sábado, 16 de dezembro de 2017

Os caminhos do mistério e a trama da dominação (Resenha do livro “Vulgo Grace” de Margaret Atwood)

Por: Alberto Silva

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Em 2017, a Editora Rocco passou a brindar os leitores brasileiros com a reedição – ou lançamento inédito – das obras da prestigiada escritora canadense Margaret Atwood. Vencedora do Book Prize Awards e do Príncipe das Astúrias, uma das mais reconhecidas literatas anglo-saxãs do nosso tempo ficou mais famosa pelo livro The Handmaid`s Tale (1985) – uma representação distópica do cerceamento dos direitos das mulheres em um mundo onde a dominação masculina ganha tons totalitários e é levada ao último grau –, publicado pela primeira vez na década de 1990 no Brasil e transformado em seriado recentemente por uma famosa rede de streaming. Com uma produção que passeia pelos contos, pela prosa, a poesia e outras formas de expressão artística via escrita, Atwood também assina clássicos como Oryx and Crake (2003), que com o teor político que resvala nas letras da escritora, emerge como um discurso que se contrapõe aos excessos da ciência moderna.

Provavelmente seja por isso que o nome da autora passou a ser aventado com mais frequência, inclusive no mercado editorial dos EUA. Vivem-se tempos onde a reflexão se faz mais premente, mesmo aquela que se esconde por trás de narrativas eminentemente ficcionais. Vulgo Grace ou Alias Grace (1996), também matéria prima para os roteiros de conteúdos de plataformas, retorna à baila com tradução de Geni Hirata e trama baseada em fatos reais – e inclusive redigida pela canadense graças a uma extensa pesquisa em arquivos de museus e jornais – que evidencia o mistério por trás do assassinato de Nancy Montgomery e Sr. Kinnear (para usar o pronome empregado pela protagonista) em Richmond Hill, cidadezinha próxima a Toronto na década de 1840. Cercado de controvérsias, o caso acabou tendo dois condenados no período: James McDermott, o mentor do banho de sangue narrado no livro, e condenado a morte na forca; e Grace Marks, também condenada à morte, mas posteriormente tendo a pena “reduzida” à prisão perpétua, haja visto as seguidas campanhas a seu favor, que questionavam a participação de Grace nas artimanhas que levaram à aniquilação do casal formado por um rico herdeiro irlandês e a governanta de sua propriedade.

O julgamento de James e Grace, que após a ocorrência do crime tentaram fugir juntos pela fronteira dos EUA com o Canadá em cima da charrete da vítima, foi amplamente noticiada pelo jornalismo sensacionalista do século XIX. Com isso, Grace Marks se tornou uma das mulheres mais conhecidas em seu país no século da segunda Revolução Industrial. Por trás das grades da prisão, a “personagem” vivencia desde a consideração de sua loucura que a leva a passar parte de sua sentença encerrada em um hospício – episódio descrito com arroubos de romantismo por Susana Moodie em Life in The Clearings (1853), passando pela humilhação perpetrada pelas colegas de celas vizinhas e guardas que a assediavam intensamente, principalmente quando ela necessitava se deslocar acompanhada dos mesmos até o trabalho na casa do governador do presídio, que juntamente a sua mulher e às filhas a viam com bons olhos, sendo inclusive incentivadores de um grupo formado por metodistas e espíritas que trabalhavam a favor da sua libertações por meio da produção de diagnósticos que atestassem a sua inocência e de petições enviadas aos governos de “Nossa Majestade”, responsáveis por avaliar em nível de Estado o caso. O corpo de defensores de Grace que extrapola os limites da mera advocacia é formado, dentre outros, pelo reverendo Verringer, o dr. Jerome DuPont: um hipnotista com ares de charlatão cuja identidade vai sendo desvendada com o decorrer da história e em muito tem a ver com o passado de Grace e da royal family da penitenciária que nutre um indisfarçável entusiasmo com a luta em prol da ex-empregada de Nancy e Kinnear. Para ajuda-los, convocam o dr. Jordan, um respeitado médico que tem dificuldades de lidar com as visões de sangue intrínsecas a sua profissão. Jordan hospeda-se em uma casa de reputação questionável, habitada por um casal atormentado e uma cozinheira e lavadeira de caráter chantagista e detentora de costumes brutais. Posteriormente, a sra. da casa se apaixona por Jordan, levando-o a beira do escândalo.

Jordan já está prometido em casamento a uma srta. de codinome Cartwright, à moda aristocrática, e recebe inúmeras cartas de sua mãe preocupada com seu destino enquanto médico e abatida por uma saúde frágil, típica de pessoas com mais idade. Entretanto, ao realizar as consultas de Grace Marks pedindo-a que narre sua história, o médico, que é fascinado pela análise da psique humana, acaba desenvolvendo um carinho sutil, ou mesmo um amor pela paciente como pode-se deduzir a partir da leitura. Uma atração platônica que não se desvela. Grace já foi alvo das declarações amorosas de Jamie Walsh, das investidas do mascate Jeremias que desde os tempos do seu primeiro emprego volta e meia lhe encontra nas cozinhas das casas onde atuou – como uma espécie de predestinação no romance – e das nem um pouco delicadas tentativas de estupro de McDermott que ambicionava casar-se com ela na América após a escapada que acabou sendo malsucedida. Jamie e Jeremias (que com James e Jordan tem a letra inicial “J” no nome, encaixando-se com uma previsão que constrói um dos pontos de partida da estória) também pedem a sua mão em algum momento do thriller fascinante.

Em sua narração ao Dr. Jordan que vai da infância ao julgamento perante a sociedade, Grace narra uma vida trágica. Um pai abusivo e alcóolatra que agredia a mãe, vários irmãos em uma família paupérrima das quais ela era a primogênita e a pobreza na Europa que os levara a uma travessia de navio para o Canadá, a terra prometida onde o que se valiam não eram os títulos, mas o mérito. Nesse ponto, Atwood reproduz um dos lemas clássicos que mobilizavam os imigrantes na época com a mesma habilidade e astúcia com as quais consegue materializar os estereótipos do período que se reproduzem em alguma medida até os dias de hoje. Com a chegada na famosa cidade de Toronto, onde Grace uma menina do interior passa a lidar com o cosmopolitismo urbano do Novo Mundo, aquela que será considerada uma das assassinas mais famosas de todos os tempos vai trabalhar na casa da sra. Parkinson, uma abastada e conservadora patroa repleta de beatices memoráveis. Lá ela vive o período mais feliz de sua vida – entre os treze e dezesseis anos – ao conhecer Mary Whitney, uma conselheira e grande amiga que lhe ensina lições valiosas para toda a vida. Tal felicidade é interrompida após Mary realizar um aborto clandestino em razão do abandono por parte de um rapaz que havia lhe prometido uma vida de casal. Grace Marks passará por várias casas a partir daí, até chegar a de Kinnear, onde após seis meses presenciará o horror do qual encontrará lapsos de memória para recordar frente aos questionamentos de Dr. Jordan. Em sua trajetória, a sombra de Whitney estará com ela por toda a vida, até a sua velhice.

As cenas do assassinato são desvendadas de maneira parcial por Grace a Jordan, gerando um elo de intimidade. Jordan, entretanto, terá de recorrer às promessas de Jerome DuPont e a ideia de sessões públicas de hipnotismo para tentar extrair aquilo que a presidiária não consegue revelar. Jordan mantém assim desconfiança em relação à técnica do hipnotismo, cientificamente questionada pela medicina da época (até mesmo ridicularizada), e no que diz respeito à própria estória contada por Grace, a qual ele precisará testar pessoalmente a veracidade, inclusive fazendo uma visita a casa onde ocorreram os tristes fatos que puseram a sofredora e/ou suposta femme fatale na cadeia. A partir dessa altura, aquilo pelo qual o leitor tanto anseia começa a aparecer passo a passo, como em um toque de magia que só o romancismo é capaz de proporcionar aos leitores ávidos. Nesse sentido, não há um plot twist significativo no livro e isso é importante dizer. A expectativa de grandes viradas é frustrada com uma narração que ora pende para a primeira pessoa ora para a terceira pessoa de maneira ritmada e lenta. Nem por isso Atwood abandona a concisão e a atratividade. A vida de Grace Marks é per se suficiente para criar um ambiente de drama e mistério. Suas agonias existenciais de assassina condenada que se resignou a uma realidade que no seu caso é altamente questionável em termos de justiça, põem a prova as piores críticas que a prosa de Margaret possa ter.  Os capítulos são introduzidos por trechos de descrições do caso na época advindas de jornalistas e demais observadores, além de poesias (não se sabe se os autores das mesmas são pseudônimos ficcionais) que quebram a linearidade da estrutura narrativa, o que não indica um ponto negativo, pelo contrário. A diversidade literária da canadense é um recheio a mais às páginas.

Além do mais, a autora introduz o tema da opressão de gênero de maneira por vezes subliminar, por vezes explícita. Grace Marks expõe o dilema da mulher frágil levada a cometer um crime por conta das amarras de um homem agressivo versus a ardilosa assassina julgada por uma sociedade que vigia o comportamento das “damas” em seus mínimos detalhes. As demais personagens do livro também resvalam na temática, como no caso de Mary Whitney que aborta mas tem de ter o seu segredo escondido mesmo após o próprio enterro; das filhas do governador que caminham pela casa com vestidos gigantescos mesmo no verão e devem se sentar e falar de maneira casta de modo que não provoquem escândalos; do senhorio da hospedagem de Jordan que mesmo apaixonada pelo dr. e aviltada pelo marido que a fugiu deixando-a à doente e à mingua não pode sonhar com outra possibilidade que não o retorno e os ordenamentos de seu cônjuge; dos olhares condenatórios que Nancy Montgomery, antiga “mulher da vida”, recebe na ida dominical à igreja; dos assédios morais e físicos que Grace sofre em razão da condição feminina. Atwood definitivamente resgata o tema da submissão da mulher, todavia, elevando-a do coadjuvantismo ao protagonismo. E deixa uma dúvida permanente no ar, não ousando responder aquilo que nem mesmo os historiadores do caso chegaram a aventar satisfatoriamente: Grace foi culpada ou inocente?

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Referências bibliográficas

ATWOOD, Margaret. Vulgo Grace. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2017. 512p.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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