terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Pedagogia histórico-crítica de Saviani: o que está faltando para a catarse?

Por: Luciano Pontes

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O Capitalismo atual e suas formas de dominação, a começar pelo discurso e pelo status do conhecimento, devem ser superados. Mas, como superar a alienação (que é a não-obtenção do que se produz pelo produzido) em termos de conhecimento escolar ? O que falta para nossos alunos conseguirem superar a alienação do cotidiano e assim ter a catarse do conhecimento?

Primeiramente, vamos dar nome aos bois. O que seria a Pedagogia Histórico-crítica? Pode ser considerada uma metodologia de ensino, uma reflexão epistemológica da aprendizagem, depende do ponto de vista. Altamente influenciada pelas ideias marxistas e preconizada pelo brasileiro Dermeval Saviani.

Essa metodologia segue, segundo o próprio Saviani, 5 passos, a saber:

1 – prática social inicial: nessa fase, pensa-se no que o aluno sabe em relação ao(s) conteúdo(s) estudado(s).  Verifica-se nesse momento em qual estado do conhecimento se encontra esse determinado conteúdo. A visão do aluno pode se apresentar sincrética, desorganizada, faminta de significado com relação à prática social. Nesse momento o professor, dotado de uma visão mais sintética, deve através do diálogo entender como o aluno pensa sobre esses conteúdos.

2 – Problematização: nessa etapa, o professor explica os principais problemas da prática social com relação o conteúdo. Nesse momento, deve-se instigar o aluno a “criar” soluções para esse problema. Pode-se pensar nessa etapa como a contraposição do conteúdo abordado e os prática social, em função dos problemas que precisam ser resolvidos do e no cotidiano das pessoas.

3 – Instrumentalização: Essa fase pode ser entendida como a fase didático-pedagógica. O professor deve equacionar o conteúdo, sistematizando-o em sequências didáticas, onde a aprendizagem por parte dos alunos se evidencia, com relação ao conteúdo e também a aprendizagem científica deste.

4 – Catarse: É a nova forma de enfrentar a prática social. Pelas palavras do professor José Benedito, é a síntese entre cotidiano e científico, do teórico ao prático. O aluno mostra, através da avaliação (não confunda com exame) como o aluno conseguiu chegar a essa nova compreensão da prática social.

5 – Prática social final: Nesse momento, o aluno retorna à prática social, com uma nova dimensão desta. A ação agora é mediada, dentro de uma proposta marxista, da apreensão das múltiplas especificidades de um objeto, isto é, a superação da alienação do cotidiano.

Nesse sentido, Saviani comenta em seu livro “Escola e Democracia – Para além da curvatura da vara” sobre a distinção entre empírico e concreto. Empírico está dentro da realidade sensível, a prática social sem catarse desta. O concreto é justamente quando se tem essa catarse, quando se compreende as múltiplas especificidades dentro de uma complexidade.

Transitando nisso, pergunta-se: porque não há catarse no ensino? E mais: porque o que aprendemos é apenas pra ficar nos exames e os alunos não se dão conta disso?

Talvez os problemas sejam muitos. A começar pela instrumentalização. Se essa for demasiada rápida, não haverá aprendizagem significativa. Destarte, não há catarse daquilo que não se aprendeu. Então o processo vira conteúdo pelo conteúdo, a velha frase “estudei pra passar”. Outra preocupação está mais no início, na prática social. Se essa prática não tiver amalgamada na prática do aluno, isto é, se estamos falando de algo que o aluno não conhece e não condiz ao seu cotidiano, é impossível a superação do status quo, pois não há status quo.

O professor também deve ter em mente essa catarse. Do contrário, ele não poderá saber quando o aluno percebeu que aquela realidade dele pode ser transformada. Aqui não expresso o professor como detentor do saber, mas sim como possuidor da catarse da prática social, sabe que a alienação do cotidiano existe e precisa ser superada.

As possibilidades de não-catarse são bem maiores que as de catarse, tendo em vista o ensino ainda em vigência na pauta das tecnicidades e da manutenção do status quo. O ensino propedêutico é apenas a ponta do iceberg dessa impossibilidade de ter o conhecimento aliado à percepção do cotidiano, do trivial.

Se o aluno não conseguir a catarse, que ao meu ver é a cereja do bolo da Pedagogia Histórico-Crítica, estamos voltando a violência simbólica e a reprodutividade das desigualdades sociais na escola. Em um mundo totalmente emergido em um dilúvio informacional, a confiabilidade das fontes tende a zero. A escola e o professor são os agentes da passagem da síncrese para a síntese.

Aprender para superar a alienação do cotidiano. Sair dele e voltar a ele com uma nova compreensão. Esse é o grande objetivo ao se pensar em uma educação crítica. Novamente: esse tema nunca se esgota em si. Estamos em constante síntese e retorno à síncrese. A dialética é mais que necessária em tempos de crise de conhecimento. Sigamos…

Obras recomendadas:

Escola e Democracia: Teorias da Educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política – Dermeval Saviani;

O que é ciência afinal? – A. F. Chalmers;

Teoria do conhecimento do jovem Marx – György Márkus;

O cotidiano e a história  – Agnes Heller;

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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