sábado, 23 de dezembro de 2017

O que aprendi na universidade

Por: Alberto Silva

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“Philistines” de Jean Michel-Basquiat (1982)

 

O ponto de vista de um graduado

Quando o vazio do fim de ano toma conta das nossas palavras e dos nossos gestos, talvez seja hora de fazer uma reflexão sobre o tempo que passou. Os historiadores costumam afirmar que um levantamento historiográfico próximo ao tipo ideal de uma boa pesquisa que levanta os prós e contras dos fatos e situações apresentados à indução/dedução, passa necessariamente por um afastamento dos turbilhões e sequências de cenas da vida diária em foco. Nessa linha, olhar para o ano que passou em específico é também pôr o coração e a mente nas experiências que deram o tom da minha vida nos últimos quatro anos. Logo, esse texto tem um indisfarçável caráter pessoal, de crítica aguda e relativa distância do que se passou na minha experiência estudantil na universidade. São seis pontos que aqui procuro apresentar como uma síntese (à moda das listas de internet) que expõe o dito e o não dito, concreto e abstrato, da intensidade de estar preso à sala de aula, aos espaços de debate e aos cantos culturais proporcionados em uma graduação.

Antes de tudo, é preciso dizer que a universidade – e em particular o curso de ciências sociais (no meu caso, ciência política) – desperta a inevitabilidade da transformação pessoal que nada tem a ver com a passagem da idade, haja visto que mais do que os anos são as experiências que moldam os indivíduos. No geral, transições do “eu” que são mais boas do que más. Para alguns, mais más do que boas. A lida cotidiana aflige e provoca. Gera e frustra. E como frustra. Essas frustrações fizeram parte do devir da minha experiência universitária. Foram tantas no meu caso, mas que incrivelmente não tiveram a capacidade de ofuscar a felicidade, o amor e a esperança resultantes do esforço e do gosto pelo conhecimento. Não sou dado a exageros de otimismo, mas a dramatismos de conveniência – talvez. Meu elogio é o elogio ao saber, não ao cerco que as práticas correntes provocam ao moldar o modo como experimentamos o mundo. A desnaturalização do campo social move minha reflexão e minha tentativa de absorvê-lo.

Sim, porque sobretudo o que me levou até aqui foi o amor por conhecer, por descobrir, por sentir. O desejo por encantar pessoas do modo como algum dia fui encantado (poucas vezes, mas fui). Entrei na graduação porque queria e quero ser professor. Descobri lá dentro que eu também posso ser pesquisador. Os livros, os artigos, os debates e a possibilidade de escrever – e escrever muito (quase descontroladamente) como eu sempre gostei desde a tenra infância – me deram gás na caminhada. Gás para atravessar a soberba, a mesquinharia e o elitismo hierárquico que cerca os muros das instituições de ensino. Gás para saltar as barreiras, convencer, argumentar. Gás para viver em uma época em que somos atacados politicamente enquanto partícipes de uma resistência em nome da ciência, da tecnologia e do pensamento crítico. Dizem que quem sabe de nós somos nós mesmos. Digo ao meu leitor que eu sou profundamente tímido e avesso a recepções sociais. Quem me conhece às vezes pensa o contrário. Portanto, é com timidez que exponho relatos.

Preferiria viver escondido em uma biblioteca pessoal. Mesmo desejoso de conhecer o mundo, de avião em avião, é no refúgio das quatro paredes, experienciando a sensibilidade artístico-cultural-literária de poemas e imagens ou então a compreensão lúcida dos escritos sobre a sociedade que eu me encontro plenamente realizado, embora sinta a necessidade de passar aquilo tudo que retenho para mim, de maneira um tanto quanto romântica, não por mero anseio profissional, mas porque não vejo sentido em guardar a sete chaves esse precioso poder advindo do conhecimento. É na calma e no silencio, desacompanhado, que vivo a plenitude. Mas é somente cercado do outro, que todas as nossas labutas por mais prazerosas que sejam fazem sentido. A universidade me fez compreender isso melhor. Um curso superior, por mais banal que estejam os cursos superiores, deu um impulso a mim no que tange à execução literal dos significados da palavra “convivência”, no que ela guarda de proveitoso e inútil. E me armou para a flexibilidade, tanto quanto para a intransigência.

O que há de melhor

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01 – A universidade provavelmente é o melhor espaço da sociedade para se construir debates sobre as grandes questões nacionais: Se hoje as universidades brasileiras sofrem cortes orçamentários significativos e no mundo de uma maneira geral a ciência esteja sendo posta em cheque pela “pós-verdade” – com o anti intelectualismo predominante na direita e na esquerda – é porque a academia continua sendo um bastião da resistência contra os autoritarismos que tentam se impor à revelia da busca de evidências empíricas ou normativas bem fundamentadas. Embora não signifique que seja um espaço extremamente plural (o debate pode ser visto como incômodo), as universidades continuam – como nenhum outro tipo de instituição – a abrigar a maior parte dos debates sobre temas caros a sociedade, justamente por aglutinarem grande número de estudiosos. No meu período de graduação, acompanhei infindáveis debates entre acadêmicos e membros do Estado, embora com menor espaço para as vozes dissonantes advindas dos movimentos sociais. Sendo essa última uma luta importante hoje travada nas universidades: a da ocupação de espaços, principalmente por sujeitos marcados por identidades subalternas que historicamente foram relegadas nas discussões.

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02 – Para pessoas abertas, a universidade traz experiências infindáveis de toda sorte: Ao me remeter às experiências que a universidade proporciona, falo daquelas que transpassam as aulas ou mesmo as atividades extracurriculares. Estar na graduação é estar sujeito à boas amizades, mas também a desavenças monumentais; é viver conflitos gerados de descobertas pessoais, ao mesmo tempo que de dúvidas que pairam acerca do seu passado, presente e futuro; é se encontrar com o novo, potencializando a transformação, sem necessariamente esquecer o que te trouxe até ali. No meu caso, foi um período de desconstrução de “verdades” e desnaturalização contínua do mundo social que me levaram ao amadurecimento, à algumas crises e sequências fraternas de risos e positividades em meio ao cotidiano aparentemente mecânico do dia a dia estudantil. Vivi também pela primeira vez experiências de outra natureza na universidade, o que não cabe relatar aqui. A university age é algo que sai dos muros que cercam nossa vida do lado de dentro dos centros de aprendizagem e vai para as ruas, manifestando transições permanentes.

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03 – A universidade provavelmente é o melhor espaço da sociedade para dar voz às novas tendências e comportamentos de uma sociedade: Importantes constructos mobilizatórios, teóricos e científicos que revolucionaram tendências sociais nas áreas do comportamento, cultura, artes, tratamentos médicos etc. saíram e continuam a sair das universidades. Seja através do impacto de pesquisas realizadas nos recintos acadêmicos, seja por meio dos profissionais formados nas instituições universitárias. Isso logicamente depende do tipo de relação que o campo acadêmico mantém com a sociedade. No Brasil, tal interação se dá de maneira ainda muito fraca, o que não significa que em alguns setores (na contramão do sucateamento sistemático) não tenha se fortalecido. Tenho minhas dúvidas, entretanto, se o diálogo entre universidades e mercado possa ser positivo. Nesse jogo, geralmente as ciências humanas e sociais acabam perdendo e os pesquisadores acabam submetidos à lei da oferta e da demanda, o que empobrece de forma determinante a reflexão e gera uma mercantilização inapropriada do conhecimento. Mais preferível seria a comunicação entre academia e comunidades locais, em uma aliança sólida com os trabalhadores.

O que há de pior

Postcard from Olda and Oskar Kokoschka, London [1 January 1950] Presented by the Trustees of the Marie-Louise von Motesiczky Trust, March 2012 http://www.tate.org.uk/art/archive/TGA-20129-1-3-32-2-1

04 – Não existe ética acadêmica: A universidade, e portanto a academia, não é regida por uma ética. Quem fala em “ética acadêmica” está se valendo de uma retórica garbosa e concomitantemente enganosa. Seja nas instituições públicas ou privadas, esse é um problema de grande magnitude. O modo de se relacionar com os professores, por parte dos alunos; o modo de se relacionar com os alunos, por parte dos professores; a maneira como se lida com a pesquisa científica: tudo isso se dá de modo eminentemente instável e inseguro quando se está em uma universidade. Normas de conduta que favoreçam as partes mais fracas podem ser um grande simulacro, enquanto procedimentos burocráticos são aplicados de maneira kafkaniana e autoritária. As relações de poder exercidas desigualmente – graças a inexistência de delimitações muito claras do que é atribuição de quem e o que é sinal de liberdade ou invasão – entre os atores que compõem a universidade é precedente certo para o fechamento do ambiente de trabalho, a geração de problemas de saúde mental, a competitividade exacerbada que substitui uma cooperação em tese muito mais positiva e o “produtivismo” injustificado. Ataques à individualidade e a ritmos diversos de atuação costumam ser comuns.

17Urlaub_000305 – A universidade se propõe a ser o espaço das ilusões: Por ser um lócus onde ocorrem importantes debates, é comum que os acadêmicos de todas as áreas sejam prolíficos em oferecer alternativas de alteração e construção de realidades, que resvalem em proposições reformistas ou revolucionárias até. Argumentos dessa natureza, entretanto, tendem a cair no vácuo quando não existe um processo dialógico com os sujeitos que efetivamente são capazes de impor mudanças na sociedade. A baixa penetração dessas alternativas tem diferentes motivos, as quais não é cabível se debruçar aqui. O que interessa dizer é que muito do que é proposto acaba se encerrando na linguagem, ignorando que a universidade tanto quanto outros espaços, deve possuir responsividade com relação aos meios externos e que o conhecimento não é algo que deva apodrecer em instantes de bibliotecas ou em revistas concorridas (os ditos periódicos) mas que pouquíssimas pessoas leem.

post-jogos-de-poder-previ06 – A “democracia” é muito estudada e pouco praticada, bem como a ode ao “progresso” é cultuada e fracamente vivida: O último aspecto diz respeito às relações travadas nas universidades. A despeito do discurso da democratização que está na ponta de língua de muitos professores, técnicos, gestores e alunos, a grande verdade é facilmente notada: as posições e hierarquias dentro dos espaços acadêmicos contam tanto quanto se estivéssemos nas Forças Armadas, por exemplo (sem a mesma brutalidade relativa). Um título a mais determina em grau desproporcional as oportunidades de ação e decisão das pessoas que constroem os projetos de ensino, pesquisa e extensão. A deferência e os privilégios, típicos das cortes, são mais comuns do que se imagina – o que produz relações de bajulação e clientela do mais baixo nível. A inveja mascarada de concorrência grassa em todos os cantos, o que dá margem para a aniquilação da criatividade e do livre pensamento. E é claro, nas ciências humanas e sociais – área a qual integro – a coerência intelectual tem se constituído como um item de perfumaria. Há quem diga que é normal uma universidade doente no que se refere às relações humanas em uma sociedade doente. Ou que a culpa é das “condições de trabalho”. Acho pelo contrário que essa não seja uma justificativa plausível. A anti democraticidade resulta sobretudo do emponderamento das prerrogativas de alguns e do esvaziamento do sentido do trabalho de outros. Por constituírem tradições, há antipatia quando se fala em mudá-las.

*

Toda vez que escrevo, escrevo de um local. Geográfica, social, cultural e politicamente centrado. Minhas impressões são as de um aluno que terminou a graduação em Ciência Política em uma “pública” após exatos quatro anos, com um desempenho que pode ser chamado de bom e “produtivo” e que anseia em ser professor dessas mesmas universidades (com seus prós e contras) um dia. Diferentes estudantes terão diferentes percepções das suas vivências acadêmicas. O importante é não suprimi-las no que elas têm de bom e de ruim, expressando-as permanentemente sem fraquejar. E também não cair na armadilha de que qualquer crítica tem que ser necessariamente vista como um endosso àqueles que querem fazer do saber uma mercadoria. Afinal, universidades não são apenas fábricas de diplomas, elas são construções coletivas de quem faz – para bem ou para o mal – parte delas, desde a importantíssima etapa de iniciação à vida acadêmica que é a graduação.

Com o 42ª texto, a minha coluna encerra 2017. Em janeiro de 2018, cinema, literatura, crônicas, sociedade, entre outros temas, estarão de volta à baila. Pois a minha razão de estar aqui é você, minha leitora ou leitor.

Boas festas.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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