quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Porque é mais seguro fazer como todo mundo faz

Por: Juliana Santin

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Esses dias li um texto do Rubem Alves em que ele conta que teve uma infância pobre, no interior de Minas Gerais, mas que, apesar disso, era muito feliz. Segundo ele, sua infelicidade começou quando as condições financeiras de sua família melhoraram e eles se mudaram para o Rio de Janeiro, onde foi estudar em uma escola de “cariocas ricos”. Nessa situação, ele passou a sentir vergonha de sua pobreza e de sua família. “A origem dos nossos males está na comparação”, diz ele citando Camus.

Ele continua dizendo que experimentou a infelicidade da comparação na escola, mas que hoje em dia não é preciso ir à escola para sentir a sua maldição. “Basta ligar a televisão. A televisão é uma máquina de infelicidade, na medida em que ela nos obriga a comparar.”

Quando li isso, na hora pensei que hoje em dia, a máquina de comparação mais eficaz que temos são as redes sociais, essa fotonovela da vida “real” que consumimos vorazmente e que nos lembra a todo instante que nossa família não é tão unida, que nossos filhos não são tão incríveis ou que não viajamos tanto quanto gostaríamos. Que nos faz “glamourizar” momentos banais para parecerem melhor do que são, para que possamos nos manter na festa.

Pensando mais a fundo sobre isso, questionei: por que as pessoas fazem isso? Qual o motivo de entrar nesse jogo, nessa rede de comparações em grande parte movida à inveja? Felicidade não é, já sabemos disso. A felicidade falsa das redes sociais convence menos que Papai Noel hoje em dia. A conclusão que cheguei foi que isso se deve ao nosso medo extremo de não pertencer à boiada.

O medo que temos de sermos livres de verdade nos leva a querer fazer o que todo mundo faz. Como diz a canção, “seria mais fácil fazer como todo mundo faz, um tiro certeiro, modelo que vende mais.” E, no fim, é tudo muito contraditório, porque todo mundo quer se destacar de alguma forma. A vaidade, esse prazer erótico que sentimos quando percebemos que estamos sendo admirados pelos nossos pares, está presente em todos nós, mas ao mesmo tempo, todo mundo quer pertencer a um grupo, morrendo de medo de ser excluído.

Lembrei de um trecho que me marcou muito no livro Os Irmãos Karamázov, do Dostoiévski, que é uma reflexão bem profunda sobre o medo que temos da liberdade e nossa extrema necessidade de ter algo ou alguém para idolatrar, mas que necessariamente seja idolatrado pela boiada. Ainda que a reflexão seja sobre a crença religiosa, ele destaca que “mesmo que os deuses tiverem desaparecido, prosternar-se-ão diante dos ídolos.”

Podemos pensar nos ídolos aqui citados como tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, comanda nossas ações, no mesmo sentido que o Nietzsche usava a palavra “ídolos”. Como na alegoria da marionete, que você está agindo de uma forma ditada por outros que não você, mas tem a falsa sensação de que é você que está no controle, porque não enxerga os fios que o amarram.

“Porque não há, para o homem que fica livre, preocupação mais constante e mais ardente do que procurar um ser diante do qual se inclinar”, diz o personagem Ivan Karamázov no livro. “Mas só quer ele inclinar-se diante de uma força incontestada, que todos os humanos respeitem por consenso universal”.

Se todo mundo faz as tais histórias no Instagram postando foto da sua ceia de Natal, da academia, da viagem de férias, do prato, isso está legitimado. Vamos nos curvar, procurar o melhor ângulo, os melhores sorrisos e entrar na festa. “Porque essas pobres criaturas atormentar-se-ão em procurar um culto que reúna não somente alguns fiéis, mas no qual todos juntos comunguem unidos pela mesma fé.” Nada como o Facebook nosso de cada dia.

Se os formadores de opinião, hoje chamados de “influenciadores digitais” estão apontando para uma direção, nada mais seguro do que segui-la. Se todos tecem comentários sobre o mesmo filme, precisamos participar da roda. Se todos falam sobre a celulite da celebridade, não podemos ficar de fora, ainda que isso não nos interesse de fato. Nada como o “Vai Malandra” nosso de cada dia. Como diz outra canção, “tá cego, mas tá guiando alguém”. E põe alguém nisso!

Assim, a dor da comparação é legítima e notória e leva as pessoas a moverem montanhas para finalmente se diluir no todo, fazer parte do rebanho. O desprezo pelos diferentes, por aqueles que não se curvam aos mesmos ídolos é medo e um pouco de desespero. Ao manter o status quo, as pessoas se sentem seguras. Enquanto a regra é: cariocas ricos são mais felizes que mineiros pobres, os cariocas ricos podem respirar aliviados; embora não tenham certeza disso, devem ser felizes, já que é isso que ditam as regras. Agora quando um mineirinho pobre surge feliz, precisa ser logo espezinhado para que a “normalidade” prevaleça.

Lembrei-me do tal “amor prático” de Kant e acho que vivemos constantemente em estado de “felicidade prática”. Kant dizia que o amor é um sentimento que não se deixa traduzir por regras e imperativos, mas, por isso mesmo, amamos pouco. Poucas são as pessoas ou coisas que nos despertam amor genuíno. Por isso, existe a moral. As virtudes morais são uma imitação do amor, na falta dele. Se não amo, ajo como se amasse. Essa é a moral de Kant, ao qual ele chamava de “amor prático”.

Acho que o amor prático de Kant merece um texto só para ele, mas aqui só queria fazer a analogia: na falta de felicidade real, criamos a “felicidade prática”. Vivemos em uma época em que a depressão é quase uma epidemia, as pessoas sofrem de ansiedade, pânico, solidão, mas nunca deixam de expressar sua felicidade prática, de fazer suas ceias de Natal, suas viagens e outras tantas coisas que encontram no Manual de Felicidade do Mundo Atual. Não funciona para gerar felicidade real, mas funciona muito como rede de segurança e conforto de, pelo menos, não estar sozinho nesse circo.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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