terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Bolsonaro, você não precisa entender de economia política. Você só precisa ler Marx

Por: Geylson Rayonne Cavalcante

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“Quem não aprende com a história está condenado a errar novamente.”
Paul Krugman

De forma clássica, o filósofo amedronta quem não o leu. Cômico: da ignorância à falsa crítica, o materialismo histórico é uma categoria desconhecida para o salvador da pátria, contudo, Jair não entende que a proposta marxista não vai de encontro com as falácias por ele expostas. Crítico do PT, do PSOL e dos partidos que se auto proclamam de esquerda, a postura intelectual do parlamentar é uma caricatura e um desserviço ao modelo democrático e representativo adotado no país. Ademais, vigora por ai, diuturnamente, que as escolas e Universidades estão doutrinando os alunos.

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De fato, a doutrina existe, mas quase todo mundo tem iPhone e eu não. Capitalismo selvagem? Alta taxa de juros? Alta na SELIC? Venture capital? Câmbio? Pois é, Jair, se nem você que almeja a presidência entende sobre tais categorias econômicas, imagine eu, um reles doutrinado pertencente a infraestrutura da sociedade. Mas, explico a ti e aos teus seguidores algumas coisas que aprendi lendo um texto básico da economia política mundial cujo título é Trabalho Assalariado e Capital¹, do fantasmagórico barbudo prussiano. Bem no início, Marx dirá:

“Todas as reformas sociais permanecerão utopia até que a revolução proletária e a contra revolução feudal se meçam pelas armas de uma guerra mundial.”

Bingo! É necessário torturar e explodir pessoas para reformar a sociedade? No entendimento moderno, a resposta é dramaticamente negativa, tendo em vista que expandir valores socialmente democráticos é o fim real de todo ato revolucionário, melhorando a vida de quem trabalha e de quem produz. Adiante, o texto expõe em três grandes secções sua ideia nevrálgica, quais sejam:

“1º) a relação de trabalho assalariado com o capital: a escravidão do operário, o domínio do capitalista; 2º) o declínio inevitável das classes médias burguesas e do chamado estado burguês no atual sistema; 3º) a subjugação e exploração pelo déspota do mercado mundial;”

A primeira secção é auto explicativa: é sabido que existe mão de obra, esta é precificada em horas, as ditas jornadas de trabalho e o quantum trabalhado determina o preço da vida do trabalhador. A segunda secção, confesso, um pouco mais complicada de entender: o fim do Aparelho Estatal remete ao fim do Direito, pois sendo criado pela burguesia ele nada de justo proporcionará ao assalariado. A terceira secção é básica: na época que o texto fora publicado (século XIX), o mercado era conduzido pela Inglaterra, atualmente, o arbítrio está nas mãos dos Estados Unidos da América, aquele mesmo país no qual você, seu Jair, bateu continência pra bandeira. E ainda se diz patriota. Certamente, quando Marx escreveu o texto, ele não imaginava que suas ideias seriam vítimas de simplificações grosseiras, e um chefe de estado não pode reproduzir porcamente temas não leu. No livro é dito que:

“Se o trabalho assalariado produz a riqueza alheia que o domina, o poder que lhe é hostil, o capital, para o primeiro retornam aos meios de produção, isto é, de subsistência do mesmo sobre a condição de que ele se faça de novo uma parte do capital, a alavanca que de novo lança este mesmo num movimento acelerado de crescimento.”

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Qualquer aluno de economia sabe que aqui no Brasil a moeda remunera todos os investimentos que vem de fora, pois tecnicamente falando, o capital, no século XXI, não sobrevive sem a exploração de sociedades periféricas. Quando o salário minimo aumenta, a produtividade e o crescimento do capital também aumentam, não é um fato asséptico, é algo real, tanto o é que o salário possui uma classificação, a saber: salário nominal e salário real. O primeiro diz respeito ao preço em dinheiro do trabalho; o segundo, a soma de mercadorias que o assalariado pode comprar em dinheiro. Inclusive, JOHN MAYNARD KEYNES², no Livro V de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda expõe, com franqueza, a diferenciação entre salários nominais e preços que compõe o poder econômico. Não é um dado fora da realidade. Dessa forma, o capitalismo não sobrevive sem os custos de produção despendidos. No popular, essa etiqueta econômica é chamada de lucro. Segundo Marx:

“O capitalista cria preços de venda da mercadoria, dividindo em três partes: 1º) reposição das matérias primas por ele adiantados; 2º) reposição do salário adiantado por ele; 3º) excedente.”

Surge a questão: como age o crescimento do capital produtivo sobre o salário? O teórico prussiano aqui citado é categórico na resposta, levando em consideração o aspecto da elasticidade, leciona que:

“Quanto maior a oferta, menor o preço; quanto menor a demanda, maior o preço.”

E o seu Jair não consegue absorver isto. Nitidamente:

“O capital pressupõe, portanto, trabalho assalariado, o trabalho assalariado pressupõe capital. Eles condicionam-se reciprocamente; eles dão-se origem reciprocamente”.

Não é nada pessoal, Seu Jair, só quero que você entenda que a presidência da república não é para principiantes; que compreender as ciências econômicas é um peso qualitativo para quem deseja comandar a nação. A elite plutocrata finge gostar de você, os universitários que te apoiam não votam por gostar das tuas propostas, votam por falta de opções, por pura birra e protesto; leia Smith, Marx e Keynes, estude e lance um projeto eficaz e saiba que não se chega a chefia do estado a golpes de frases feitas. A economia política brasileira, por ser macunaíma, precisa de alguém apto a arbitrar as grandes questões centrais da nação e você é só mais um na mesa do bar que não entende nada e tenta explicar tudo sem nunca ter lido Salário, Preço e Lucro³.

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Livro publicado em 1849.¹
Economista britânico.²
Obra de Marx publicada em 1898.³

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Sobre o autor

Geylson Rayonne Cavalcante

Um substrato do universo.

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