terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Por trás de todo “sim”, há um “não”: É preciso saber escolher

Por: Talita Dantas

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Eu costumava ir à praia, sentar numa daquelas barraquinhas, comer e ler. Era a época do ano em que eu mais lia. Lia sem peso na consciência. Não “tinha que” fazer nada. A bem da verdade o não ter o que fazer era, por vezes, tão entendiante que a leitura era um antídoto.

Não me levem a mal. Eu amo praia! Eu amo o mar! Sempre que estou preste a sair de Brasília e sei que vou ver o mar, eu começo a cantar já na segunda, quando a viagem é só na sexta, feliz como a raposa do Pequeno Princípe, que se alegra horas antes do encontro com um grande amigo. Odoyá!

Mas, antigamente, passar dias na praia, só sentada nas barraquinhas não era o suficiente para uma viagem espetacular. Nos primeiros dias, eu me esbaldava de água salgada, mergulhos, caldos, jacarés, sol e areia…

Ocorre que, depois de dois, três dias nesse embalo, eu logo sentia falta de outras coisas. Então, depois de uma ou duas viagens em que os dias não passavam, eu passei a já sair de Brasília preparada com os livros que ia ler nas férias.

Não era ruim não. Os livros eram uma viagem dentro da viagem! Alguns deles mudaram minha vida completamente. As viagens, dentro ou fora dos livros, sempre me mudam. Uma mudança gostosa de viver.

Minhas férias na praia eram sempre assim, alegria e canto de véspera, sol, mar, jacaré, caldo, areia, barraquinha, comida, livros, mudança… até eu conhecer o Marcos.

Posso dizer que eu era 25% mochileira quando o conheci. Eu já curtia fazer umas trilhas, andar muitos e muitos quilômetros e coisa e tal. Mas eu era uma mochileira Nutella. Ele era um mochileiro raiz.Eu ia pra trilha e dormia na pousada. Ele carregava uma mochila com 15kg e dormia no meio do mato. Às vezes nem levava barraca. Uma rede e um saco de dormir lhe bastavam. Eu olhava com um certo preconceito os quartos compartilhados dos Hostels. Ele torcia o nariz para os Resorts e para as barraquinhas da praia. Um pacote CVC era quase um crime pra ele.

Relações, construtivas ou destrutivas, amistosas ou conflituosas, são sempre um processo simbiótico. Levamos um pouquinho do outro e deixamos um pouquinho de nós, dia após dia, a cada grama de sal compartilhada.

Nessa simbiose, gostamos de algumas mudanças. De outras, nem tanto. É bom quando a gente tem mais do que gostar que do que desgostar. E isso, no mais das vezes, tem mais a ver com perspectiva do que com fatos. Aliás, diria Nietzsche, fatos nem existem, só interpretações.

Eu sou uma abençoada por ter muito, muito mais a agradecer do que a reclamar. E com certeza absoluta, uma das coisas mais felizes em que esse encontro me transformou foi numa mochileira menos Nutella e mais raiz (não sei se o Marcos também pode se alegrar por ter se tornado um pouco menos raiz e mais Nutella. Espero que sim, já que tudo tem seu lado positivo).

Como eu disse, eu já gostava de caminhar um bocado quando o conheci. Mas nunca havia me ocorrido que eu podia ir à praia e não sentar na barraquinha (ou em qualquer outro lugar). Eu nunca tinha pensado que podia, por exemplo, caminhar 14 km de Arraial a Trancoso pela praia e voltar pelas falésias.

Já são 4 anos… De Arraial a Trancoso, De Pipa a Sibauma, Pelas trilhas de Itacaré…

Eu rio quando pedimos informação a alguém e a pessoa responde “pra lá não tem nada, só praia natural, moça! E é difícil de passar por aquelas pedras. Eu não aconselho não.” E a gente segue. Porque lá onde só tem “praia natural” é justamente onde queremos ir.

Na última caminhada, lembro-me de, pouco depois de ouvirmos essa, o Marcos soltar “já pensou se a gente parasse sempre que essa galera dissesse, ‘não vai por aí não que é difícil’, o tanto de coisa que a gente teria deixado de fazer”?

Essas são algumas das paisagens lindas que a gente teria deixado de ver. E sem elas, muitas reflexões e meditações que ali vivemos também não teriam vindo. Nem aquela sensação de estar inebriada pela beleza da natureza, de também fazer parte dela, de poder ouvi-la, apreciá-la, adora-la, agradecê-la… Não teriam vindo as ótimas fotos e eu também não teria fortalecido em mim o senso de autoeficácia, de que eu posso, não obstante os obstáculos e apesar do número de vozes que se levantam pra dizer “não vai por aí, porque é muito difícil”.

Eu não posso me dizer uma pessoa que tenha uma habilidade natural para trilhas. Não se se me falta consciência corporal, espacial, coordenação motora ou um pouco de tudo isso. Mas eu vou assim mesmo. O Marcos quase dança, graciosa e velozmente sobre os obstáculos. Eu sou toda desengonçada. Mas eu vou mesmo assim. E o melhor de tudo é ver que, mesmo me faltando a habilidade, o dom ou coisa do gênero, eu consigo! SE EU ME ESFORÇO, EU CONSIGO. Se eu não desisto, eu consigo!

E se eu consigo na praia, eu consigo na vida, desde que eu não desista. Que eu peça ajuda quando for muito difícil pra mim, assim como peço ao Marcos que me dê a mão quando há um obstáculo fácil pra ele, mas complicado pra mim. Que eu me levante quando cair (eu sempre caio, “como um bife”, diz o Marcos). Que eu não dê ouvidos aos “não vai por aí que é difícil”. Que eu tenha noção do que realmente vale a pena pra mim.

Hoje eu quase não leio na praia. Às vezes, sinto falta… mas “escolhas são sempre trágicas”, dizia o professor Lycurgo em suas aulas. “Trágicas porque necessariamente a eleição de uma implica a renúncia da outra”. Noutras palavras, por trás de um sim, sempre há um não. Por trás de um não, sempre há um sim. E é muito importante que eu tenha claro para mim para o que digo sim e para o que digo não.

Hoje, eu tô escolhendo abrir mão de ler nos poucos dias do ano em que estou de férias na praia, em prol de viver essas caminhadas incríveis. Penso que a velhice me impossibilitará um dia de fazê-las e que, quando ela chegar, poderei curtir minhas leituras frente ao mar.

Enquanto isso, na praia eu me desafio, conheço paisagens sensacionais, elaboro maravilhosos diálogos comigo mesma e com meu marido, fortaleço nossa intimidade, faço minhas orações em lugares recônditos, fortaleço minha convicção de que eu posso realizar meus sonhos e vencer meus desafios e deixo para ler no avião ou no hotel.

E o que importa mesmo é que eu tenha consciência do sim e do não que estou dando e de porquê estou escolhendo dessa forma. Isso me garante melhores escolhas. Porque estamos escolhendo. Sempre. Ainda que a nossa escolha seja vagar à deriva pela vida, na vã tentativa de fugir de assumir nossa responsabilidade de escolher, estamos escolhendo. Não há pra onde fugir.

E se terei de escolher, como Florbela diria:

“se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

 Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder… pra me encontrar…”

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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