domingo, 7 de janeiro de 2018

O debate nosso de cada dia

Por: Alberto Silva

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A construção do diálogo em sociedades polarizadas é reconhecidamente difícil. Mas será que, em última instância, a tentativa de aproximar visões de mundo aparentemente irreconciliáveis é o melhor meio para superar importantes disputas? Afinal, falar em visões de mundo é antes de tudo discorrer sobre interesses, como bem colocara Alexis de Tocqueville no século XIX, e não simplesmente a respeito de meras diferenças ou tergiversações. O estabelecimento de um consenso como ideia é falsa porque simplesmente ignora a manutenção da ordem conservadora como uma possibilidade da eterna “dialogia” utópica. O debate, mesmo que responsável, ainda é capaz de prender aqueles que estão comprometidos com a emancipação social em um jogo de artimanhas e assimetrias, que simplesmente seriam mais bem tratadas pela linguagem do conflito.

Daí, vem a seguinte questão: o debate não é ele mesmo a expressão de uma conflitualidade? Do modo equivocado como muitos dos nossos contemporâneos compreendem, sim. Na verdade, o debate possui caráter pedagógico. Pressupõe duas partes ou mais que estão abertas mutuamente umas com as outras, por mais que seus pontos de vista estejam enredados sob bases ético morais distintas. Essa noção é de estrito senso. No sentido amplo, dissipa-se tal significância e o ato de debater passa quilômetros de distância da busca da razoabilidade. Ao invés de pressupor uma espécie de acordo tácito, o debate público e privado travados hoje mais se assemelham aos desfiles de moda que agitam o jornalismo cultural. Logo, opiniões são apresentadas como ornamentos e as mais belas tem maiores chances de aceitação.

Aceitação, no entanto, pode significar a incorporação da gritaria. Não a toa o senso comum pelo modo como nós o entendemos é constituído predominantemente por proposições pouco lógicas, embora o ordenamento social – para enquadrar as palavras em termos orgânicos – necessite dessas em certo grau para continuar de pé. É muito mais fácil que visões de baixa fundamentação ou relevância adquiram adeptos, ainda mais levando em conta momentos de crise. Isso se deve à facilidade proporcionada no campo da compreensão. O esforço de pensar criticamente exige o acesso à emaranhados e estruturas mais complexas que põem a prova o fôlego dos que se dedicam a essa tarefa. Caminhando nessa toada, o debate incrivelmente pode tomar contornos que dispensem a sua existência, ao menos no que contém de prático.

A aparência da pluralidade discursiva toma o lugar da substância que a pluralidade possui. Debater é estar entre diferentes e não com iguais, que reiteram as minhas teses a todo o momento. É saber também que elementos como a “racionalidade” são passíveis de relativização, a medida que a maneira supostamente universal como argumentamos é a expressão de produtos históricos centralistas que privilegiam os rituais dos homens brancos, os bravos conquistadores da inocente e perdida gente de baixo. O debate acadêmico latino-americano é enredado pelo debate acadêmico europeu. Nossas polarizações locais um factoide de como são fincadas as polarizações no Norte global. Nosso debate do dia a dia uma resultante daquilo que a mídia agenda ou pretende agendar. O processo de formação de preferências é reduzido de todas as maneiras possíveis por quem dita os cânones sociais e nossa compreensão daquilo que é “alternativo” é limitada pelo visível imediato. Debater enquanto abrir mão de privilégios é o caminho contrário do exercício supostamente pedagógico (na verdade dispendioso) ainda hoje realizado e defendido.

Substituir aquilo que é simulacro (uma das minhas palavras preferidas) por aquilo que transcende o teatro da vida real é doloroso. Com o ato do debate realizado diariamente, em sua forma mais cretina graças sobretudo a publicação imediata de ataques e exposições que não dão direito às respostas, ou se fazem indiferentes a elas, não é diferente. A argumentação e a trama das artimanhas que a cercam – permitindo que expressões subalternas corretas sejam esmagadas por racionalidades dominantes profundamente equivocadas – tem por trás algo de perverso, mas também de frutífero, quando se buscam as raízes dos seus sentidos. O verbo “debater” implicar impor limites, mas também abrir portas. A prática ainda é colonizada, cheia de ilusões regadas de razoabilidade e pouco pedagógica: o que também torna mais fácil uma saída de escape ao antagonismo e nos prende na eterna caverna que Platão mencionara em A República: o espaço das visões turvas e da ignorância.

Referências bibliográficas

PLATÃO. A República. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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