segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Os olhos cegos nas páginas de Jorge Luis Borges

Por: Alberto Silva

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Foto de Jorge Luís Borges em meados dos anos de 1980: um escritor genial de posições políticas controvertidas, como o apoio à ditadura fascista de Pinochet.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges ou simplesmente Jorge Luis Borges foi um escritor argentino implacável nos gêneros a que se dedicou: a poesia na juventude e o conto de ficção após um acidente ocorrido na fase adulta. Influenciado por e influenciando uma plêiade de escritores europeus, o autor que teve o desprazer de alçar problemas de saúde gravíssimos nos olhos e que no final da década de 1950 o levaram a cegueira, foi projetado internacionalmente graças a seu jeito peculiar de tratar com a prosa elaborada e escrita à mãos antes da proibição do oftalmologista da família que alertava para os prejuízos a sua visão de tal feito e posteriormente ditada para sua mãe, aquela que por muito tempo datilografou aquilo que imaginava, e uma assistente pessoal, que assumiu o lugar da mãe quando essa falecera já na cosmopolita Suíça da década de 1980, na qual Borges também viria a sucumbir, especificamente em Genebra. Imaginação fértil era o que não faltava para Borges. Tornou-se um ícone do realismo fantástico, e não à toa.

Para ilustrar as elucubrações desse argentino genial no mundo da fantasia e estimular o leitor dessa coluna a procurar os seus livros, nas livrarias, bibliotecas públicas ou mesmo nos ascendentes “PDF´S”, resolvi transcrever uma amostra que os cultores da sensibilidade irão de tocar. É o verbete “Os monóculos” (2007, p.149) de “O livro dos seres imaginários”, um manual de zoologia que traz todos os tipos de animais estranhos pensados na literatura universal elaborada no Norte e Sul Globais, no Leste e no Oeste mundiais, remodelados ou mesmo inventados pelo escritor, que assim como foi capaz de criar bichos que desafiam a nossa própria capacidade de raciocínio figurativo, possuía a artimanha de referenciar livros e autores que nunca existiram ou então atribuir a autoria de conteúdos no mínimo curiosos a literatos afamados como C.S Lewis, Franz Kafka e William T. Cox. Não se sabe o que é pseudônimo, o tampouco o que é nome verdadeiro. Em casos famosos, é até possível distinguir. Também não se sabe o que é o bem e o mal, a mentira e a verdade. Entretanto, é até compreensível o signo da indistinção em Borges, um homem que dormia com livros ao seu redor e trabalhou como bibliotecário em boa parte de sua vida: a fantasia é aquele elemento que fazendo justiça ao nome, questiona os limites da nossa racionalidade convencional e afirma maneiras redondamente pitorescas de pensar.

O trecho abaixo foi selecionado como o meu preferido em leitura recente de mais de uma centena de verbetes sobre animais fantásticos, aos quais se recomenda mais a consulta do que a leitura corrida, e se encontra entre as páginas 149 a 151 da obra mencionada. Todos os direitos autorais do portenho no Brasil são reservados a editora Companhia das Letras. A tradução é de Heloisa Jahn. Quem são os monóculos enfim?

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Os monóculos

Antes de ser nome de um instrumento, a palavra “monóculo” era aplicada àqueles que possuíam um único olho. Assim, num soneto redigido no início do século XVII, Góngora se referiu ao “monóculo galanteador da Galatéia”. Referia-se, claro, a Polifemo, de quem antes disse na Fábula:

Un monte era de miembros eminente
Este que, de Neptuno hijo fiero,
De un ojo ilustra el orbe de su frente,
Émulo casi del mayor lucero;
Cíclope a quién el pino más valiente
Bastón le obedecía tan ligero,
Y al grave peso junco tan delgado,
Que un día era bastón y outro, caíado.

Negro el cabello, imitador undoso
De las obscuras aguas del Leteo,
Al viento que le peina proceloso
Vuela sin orden, pende sin aseo;
Un torrente es su barba impetuoso
Que, adusto hijo de este Pirineo,
Su pecho inunda, o tarde o mal o en vano
Surcada aún de los dedos de su mano…*

Esses versos exageram e debilitam outros, do livro III da Eneida (louvados por Quintiliano), que por sua vez exageram e debilitam outros do livro IX da Odisséia. Esse declínio literário corresponde a um declínio da fé poética; Virgílio quer impressionar com seu Polifemo, mas quase não acredita nele, e Góngora só acredita no que é verbal ou nos artifícios verbais.
A nação dos ciclopes não era a única que possuía um só olho; Plínio (VII, 2) também menciona os arimaspos;

“Homens notáveis por ter só um olho, e no meio da testa. Vivem em perpétua guerra com os grifos, espécie de monstros alados, para tomar-lhes o ouro que extraem das entranhas da terra e que defendem com cobiça não menor que a empregada pelos arimaspos para despojá-los.”
Quinhentos anos antes, o primeiro enciclopedista, Heródoto de Halicarnasso, escrevera (III, 116):

“Na parte norte, parece que há na Europa copiosíssima abundância de ouro, mas eu não saberia dizer onde se encontra nem de onde se extrai. Conta-se que os monóculos arimaspos os roubam dos grifos; mas a fábula é grosseira demais para que se possa acreditar que existam no mundo homens com um só olho na face e que no resto são como os outros homens.”

*Era um monte de membros, eminente, / Esse que, de Netuno filho audaz, /Com um olho ilustra o orbe de sua fronte, / êmulo quase do maior luzeiro;/ Cíclope a quem o pinho mais valente/ Leve como um bastão obedecia, / E ao grave peso junco tão esguio, / Que um dia era bastão, e outro cajado. / / Negro o cabelo, imitador undoso/ Das águas tenebrosas do rio Letes, / Ao vento que o penteia proceloso / Voa sem ordem, pende sem asseio; / Torrente impetuosa é sua barba / Que, adusto filho desse Pirineu, / Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão/ Ainda sulcada pelos dedos de sua mão.

Referências bibliográficas

BORGES, Jorge Luis. O livro dos seres imaginários. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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