quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Glamour, traição e loucura (Resenha do livro “Suave é a Noite” de F. Scott Fitzgerald)

Por: Alberto Silva

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Suave é a Noite do romancista norte-americano F. Scott Fitzgerald* simboliza alguns dos elementos mais pertinentes à ficção moderadamente realista dos estadunidenses nas décadas de 1920 e 1930. O livro publicado originalmente em 1935 traz como pontos fortes o neorromantismo tórrido, as frequentes coincidências que marcam a vida das personagens, a materialização da futilidade e da frivolidade culturais das classes altas dos países centrais e a utilização de diálogos ora angustiantes ora sarcásticos, que inclusive recebem a tonalidade das variações idiomáticas: predominantemente do inglês para o francês. É uma história de pessoas em seu apogeu que transitam por vezes à sua decadência. Ou dos que em decadência conhecem o auge ilusório. De norte-americanos e europeus, em um constante revés dos ethos.

O ponto de partida para a trama que no encarte de luxo da Editora Nova Cultural, publicado nos anos 2000, possui pouco mais de 300 páginas é a chegada de Rosemary, uma jovem atriz norte-americana (para não dizer adolescente haja visto a sua idade de 18 anos) juntamente a sua mãe na Riviera Francesa, cenário marcado por belas praias e pessoas de reputação elevada no Velho Mundo. Uma legítima estação de encontro de aristocratas, de título e estilo. Em um passeio à praia, Rosemary – que possui um foco considerável por parte da narração na primeira parte da história, dando a impressão enganosa de que será a protagonista – conhece o glamoroso casal Dick Diver e Nicole Diver, um médico psiquiatra do interior dos EUA e uma socialite britânica, além de Tommy Barban, o casal McKisco e outros transeuntes charmosos. O primeiro revés da construção ficcional ocorre aí, quando há uma atração mútua entre Dick e Rosemary.

A atriz, que por toda a vida esteve impulsionada ou mesmo deslocada em sua carreira e vida pessoal pelos anseios da mãe que investiu em seu talento artístico – quase como em uma espécie de tragédia grega à la Édipo e Jocasta só que centrada na figura feminina –, ficou conhecida na América pelo filme A Filhinha do Papai e logo se torna objeto de bajulação do grupo de bon vivants, por assim dizer, sendo convidada para jantares e confraternizações, em parte por sua beleza exuberante, mas principalmente por ser conhecida das telas. Rosemary, entoada pela elegância, no entanto, tem que deixar Dick e suas recém-construídas amizades para viajar a Paris dando continuidade a um projeto de gravações iniciado em Hollywood. A mãe, que sempre esteve a seu lado, decide que é hora da moça seguir os seus passos adiante e sozinha, proporcionando uma primeira crise de identidade. Dessa forma, ela viaja até a cidade-luz, surpreendentemente, na companhia de Dick Diver e Nicole que decidem acompanhá-la.

Na capital francesa, Dick e Rosemary vivem o romance proibido que põe em cheque o amor que aquele vinha sentindo por Nicole ao longo de todos os seus anos de casamento. Não à toa uma mudança interessante se opera na personalidade do Sr. Diver após o caso com “Rose”, que de vivaz se torna um alcoólatra introspectivo desinteressado seja por assuntos profissionais seja pela mulher, dando maior precedência ao seu casal de filhos – uma garota e um garoto – na tentativa de preservar os elos familiares. Esse ponto do desgaste do casamento que parecia perfeito, contudo, só vem a tona na terceira parte do livro. Mistérios cercam os fatos passados ainda na primeira fase, dentre eles: a morte de um negro (o livro é cheio de “jargões” racistas conforme a mentalidade “politicamente incorreta” da produção cultural da época) depreciado nas ruas de Paris, que é assassinado em um hotel após uma confusão que envolve Abe North, amigo de Dick – morte não solucionada; o surto mal esclarecido de Nicole Diver em um banheiro do hotel onde ocorre o assassinato (dando a impressão misteriosa de que ela teria feito algo de errado) e o susto da sra. McKisco ao retornar do último andar de uma casa onde festejavam os “amigos” no início da estória, ainda em Nice. Fitzgerald obnubila acontecimentos importantes que só são parcialmente esclarecidos mais a frente.

Na segunda parte do livro prevalece a técnica do flashback. O objetivo do autor a essa altura é mostrar como Dick e Nicole se conheceram, se casaram, viveram anos felizes e que após o verão na Riviera Francesa e a presença de Rosemary, as suas vidas nunca mais foram as mesmas. Dessa forma, seria mais correto colocar Dick Diver como o grande protagonista da obra, como imagino que de fato era a pretensão de Fitzgerald. Quando exercia o ofício de médico psiquiatra como subordinado em uma clínica respeitável da Europa, país famoso por abrigar pessoas que sofrem de males relacionados a saúde mental e que podem pagar quantias pomposas por tratamentos sofisticados, Dick se apaixonou por uma paciente de nome Nicole Warren, herdeira de uma fortuna na Inglaterra, administrada por sua irmã a pretensiosa Baby Warren, de longe a personagem a mais astuta e sagaz da trama. Sua profissão: ser rica. Sua meta: encaminhar o futuro de Nicole da melhor maneira possível.

Quando a mais querida paciente de Dick começa a se recuperar, o ardor já era visível entre os dois. Baby Warren arranja o casamento entre os dois, fazendo o psiquiatra prometer que cuidará dela como esposa e como pessoa repleta de debilidades psíquicas. Um amor que se constrói com certo grau de pena, sem abandonar de todo o espírito da relação de paternalismo e tutela tipicas de um médico com seu paciente. De quebra, Baby investe em um projeto de Franz, amigo de Dick, juntamente com seu cunhado: um sanatório próprio, de onde Dick Diver e Franz Gregorovius fariam o seu nome e suas rendas no mundo da psiquiatria. Ao lado do sanatório e para manter Nicole, mas principalmente Baby, tranquilamente, Dick constrói uma mansão onde passa a residir com a “mulher” e os dois filhos – Topsy e Loly. Por algum tempo, a felicidade da paixão que havia tomado conta de ambos  ainda  consegue se manter. Com o tempo, Dick perde o interesse pela profissão, se vicia em bebidas alcoólicas, viaja frequentemente para a Europa se envolvendo em confusões homéricas e reencontrando Rosemary quatro anos depois na Itália, uma moça que sofrera bruscas alterações comportamentais, mas que nunca havia deixado de lado a sua febril paixão por Dick, mesmo estando às portas de um noivado com o diretor da companhia de cinema da qual integra.

O autor dá um salto dos acontecimentos da Riviera Francesa para o momento mais importante do livro: o revival do romance clandestino, com cenas inquietantes de beijos e transas na Roma dos anos 30. Curiosamente, na cidade também estavam Abe North e Baby Warren, que sequer suspeitam do que se passa entre Rosemary e Dick, mas ajudam Dick quando esse é surrado por um grupo de taxistas italianos e posteriormente pela polícia do país em uma delegacia qualquer, em uma sequência ao mesmo tempo trágica e cômica, onde Baby procura pela ajuda da embaixada norte-americana em plena madrugada, sendo deixada na mão e direcionada a longas horas de espera no consulado – que cuida dos assuntos dos cidadãos estadunidenses. O espancamento assim como vários tristes fatos na trajetória de Dick são produto de sua cada vez maior incursão nos copos de uísque.

Quando retorna à Suíça, Dick encontra uma Nicole “histérica”, um casamento em queda livre, uma clínica psiquiátrica onde tantas libras foram investidas em plena desmoralização (também resultado do alcoolismo do protagonista que gera descrédito na clientela) e a percepção de que talvez o relacionamento entre ele e Nicole Warren ou Nicole Diver não passara de uma ilusão, um súbito acontecimento marcado pelo luxo, pela fertilidade e o cuidado magnânimo que escondiam na verdade um desejo nada incomum por estabilidade, precedendo a própria busca pela felicidade. Rosemary fica frente a frente com Dick e Nicole. E Tommy Barban, que sempre fora apaixonado por Nicole, resolve atar um caso com a socialite (que mostra abertura para a aventura à lá femme de trent ans  observando que seu casamento se aproxima do fim), também se debatendo com o casal. A história caminha para o final, com Tommy pedindo a mão de Nicole Diver e com a viagem definitiva de Dick para os EUA após tantas frustrações, sem para isso ter reatado os laços com Rosemary.

A moral da história que se passa entre personagens da alta sociedade europeia pertencentes a diferentes nacionalidades talvez seja a dos amores incompreendidos ou daqueles que se imaginam construídos, quando na verdade estão assentados sob bases frágeis. As relações entre os casais, principalmente após o ascenso da burguesia, não cumprem o papel  de dissipar as aparências dos aneis aos dedos das cortes de Luis XIV, por exemplo. Confesso que o livro não faz o meu estilo: excesso de romance, beirando a melosidade; diálogos repletos de esnobismo conjugado com o nacionalismo torpe do entreguerras, muito comuns entre figuras abastadas do período ou mesmo entre as classes subalternas que batalharam na Grande Guerra, mas que desaparecem do livro – ou quando aparecem como no caso dos negros norte-americanos em Paris são tratados com um racismo fulcral pelo narrador – pano de fundo social fraco, personagens que desaparecem sem maiores considerações e história arrastada, exigindo uma paciência cotidiana do leitor. O ponto alto são as relações travadas nos dois hospitais psiquiátricos nos quais Dick Diver trabalhou, a qualidade dos diálogos e o início da trama que prometia muito mais sob a luz das praias de Nice a Cannes. Com todos os defeitos, Suave é a Noite ainda pode ser interpretado como uma crítica sutil à moral de araque da high society e um ataque aos valores norte-americanos, que são caricaturados frente a nobreza europeia. Isso é feito a partir de um cruzamento pretensioso entre glamour, traição e loucura.

*Um dos maiores escritores norte-americanos do século XX, autor de (entre outros) livros como “O Grande Gatsby” (1925) e “Os belos e malditos – O retrato de uma geração” (1922).

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FITZGERALD, Francis Scott Key. Suave é a Noite. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1995. (Ver também a edição de 1972 da Abril Cultural)

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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