quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Por que obedecemos a “ELES”?

Por: Juliana Santin

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Muito já se discutiu na filosofia sobre a questão da obediência, desde Platão, passando por inúmeros pensadores, pelo Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, por Hobbes, por Sartre que afirmava que somos radicalmente livres para escolher nossas ações. Eu mesma, em escala infinitamente menor, já dei meus palpites sobre o tema em alguns textos, sempre em um tom de indignação para tentar compreender por que as pessoas seguem de forma tão pacífica ordens dadas por outras, mesmo que não estejam sob ameaça e que seja algo totalmente pessoal e aparentemente irrelevante, como o que devemos vestir ou comer.

Recentemente, tomei contato com o livro “Obediência à autoridade, uma visão experimental”, do psicólogo americano, Stanley Milgram, que buscou sair do campo teórico e filosófico para tentar compreender a questão da obediência na prática, de forma experimental.

Esse livro é sobre o experimento de Milgram, tão famoso quando polêmico, que virou até filme. “Duas pessoas chegam a um laboratório de psicologia para participar de um estudo sobre memória e aprendizado. Uma das pessoas é designada como ‘professor’ e a outra como ‘aluno’.” A experiência, então, consiste no aluno memorizar uma sequência de palavras e o professor cobrar as respostas corretas. Em caso de erro, o aluno recebe choques que vão aumentando de intensidade conforme as respostas incorretas se acumulam.

Ocorre que o ‘aluno’ é um ator que faz parte da experiência e não toma choques de verdade, mas o ‘professor’ não sabe disso. A questão era observar até quando uma pessoa continuaria dando choques em outra, mesmo quando essa começa a gritar e pedir para parar, simplesmente por obediência à autoridade que, no caso, era o pesquisador.

O objetivo do experimento era analisar a obediência às autoridades, tentando entender, por exemplo, atos de genocídios, como ocorreu durante o domínio nazista na Alemanha. “A essência da obediência consiste no fato de que uma pessoa se veja como instrumento de realização dos desejos de outra pessoa e, a partir daí, a primeira pessoa não se acha mais responsável por suas ações”.

Diferentemente do que ocorreu durante o nazismo, no entanto, em que as pessoas poderiam sofrer algum tipo de ameaça caso não cumprissem as ordens, no experimento não havia ameaça. “A obediência é mantida através da simples afirmativa, pela autoridade, de que existe o direito de exercer controle sobre a pessoa.

A obediência é o mecanismo psicológico que liga a ação individual a propósitos políticos. É o cimento que prende os homens aos sistemas de autoridade. (…) Para muitas pessoas, a obediência pode ser uma tendência de comportamento profundamente enraizada, e até mesmo um impulso prepotente que anula toda a formação sobre ética, simpatia e conduta moral”.

Milgram, no livro, explica que a maioria das pessoas, quando ouve falar sobre o experimento, diz que jamais daria os choques, que seguiria seus valores morais, mas afirma que sob pressão das circunstâncias, as coisas não funcionam assim. “Os valores não são as únicas forças a atuarem numa situação concreta, em andamento. Os valores não passam de uma estreita faixa de causas no espetro total de forças que atuam sobre uma pessoa. Muitas pessoas se mostraram incapazes de pensar em seus valores e viram-se prosseguindo na experiência mesmo não gostando do que estavam fazendo.

Ao tentar explicar porque as pessoas agiram assim, Milgram cita vários motivos, entre eles, alguns ajustes feitos no pensamento do cidadão. Um deles é a pessoa deixar de se ver como responsável por suas próprias ações. “O desaparecimento do senso de responsabilidade é a consequência de maior alcance da submissão à autoridade.”

Ele cita também a desumanização da ordem dada, o que acaba tornando mais fácil para a pessoa agir assim. Quando era afirmado que “o teste exige que faça isso”, a pessoa não associava o teste a um ser humano por trás, dando ordens. Era como se houvesse um sistema não humano mandando – como se não tivesse uma mente humana por trás do sistema.

Além disso, ter um propósito supostamente nobre – participar de uma pesquisa de uma instituição renomada, como a Universidade de Yale – dava aos participantes um significado totalmente diferente de apenas dar choques em outro ser humano, o que mostra a importância do contexto das situações.

Um fator citado, mas que não esteve presente no estudo, mas esteve na Alemanha nazista foi a desvalorização da vítima. “Uma vez tendo agido contra a vítima, essas pessoas acharam necessário vê-la como uma pessoa indigna, cuja punição tornou-se inevitável devido às suas deficiências intelectuais e de caráter”. É mais ou menos o caso de pessoas que falam que “bandido bom é bandido morto”, mas que não matariam nem uma mosca. O bandido, devido às suas falhas, torna o crime menos criminoso, aparentemente.

O ponto que achei mais interessante, no entanto, diz respeito à capacidade de transformar crenças e valores em ação. Ele diz que muitas pessoas protestavam, mesmo quando obedeciam. “Algumas pessoas estavam totalmente convencidas do erro que estavam cometendo, mas não conseguiam romper abertamente com a autoridade. (…) Sentimentos subjetivos são muito irrelevantes para a questão moral em tela, já que não são transformados em ação. O controle político é executado através da ação. As tiranias são perpetuadas por homens retraídos que não possuem a coragem de agir fora de suas crenças.”

O resultado desse estudo foi bastante surpreendente já que quase dois terços das pessoas (65%) prosseguiram com o experimento até o final, ou seja, o nível mais alto de choque. Claro que pensamos nesses casos sobre a sementinha do mal que existe em todos nós, sobre o quanto os valores morais podem ser frágeis em determinadas circunstâncias ou sobre o quanto pessoas comuns, sem nenhum traço de sadismo ou distúrbio de comportamento podem praticar atos muito violentos contra outras pessoas dependendo das circunstâncias – e como a mente dessa pessoa acaba usando diversas saídas para se livrar da responsabilidade. “Estava apenas cumprindo ordens.”

Mas eu penso que esse comportamento se perpetua de uma forma muito mais disseminada e em situações muito menos críticas como essas que envolvem atos violentos contra outros seres humanos. Se quase dois terços das pessoas não consegue falar ‘não’ a um pesquisador e dá choques em outra pessoa por conta disso, imagine quando as “ordens” são mais suaves, quando as ditaturas são de consumo, de comportamento social?

De alguma maneira, quando há um sistema que afirma que você deve agir assim ou assado, há uma tendência da maioria das pessoas a obedecer, mesmo que não queiram, simplesmente porque assim se isentam da responsabilidade por seus atos ou porque não têm força suficiente para transformar sentimentos em ações. O sistema ganha legitimidade e passa a representar uma autoridade, à qual a pessoa deve obediência, mesmo que isso signifique, por exemplo, comprar produtos fabricados por trabalho escravo.

Aliás, esse é um dos argumentos que ele justifica a obediência, essa questão da divisão da sociedade e da execução de trabalhos cada vez mais específicos, fazendo com que desapareçam o lado humano do trabalho e da vida. Muitas vezes, não conseguimos associar o tênis do nosso pé com o trabalho escravo na sua fabricação, porque não enxergamos o processo como um todo.

Porque se eu compro um tênis feito por trabalho escravo estou indiretamente dando choques em pessoas. Se eu tenho consciência de que há pessoas em condições desumanas produzindo aquele bem e não consigo dizer ‘não’ à pressão social de consumo e compro, estou conscientemente perpetuando o sistema desigual, sob a justificativa de que não sou eu quem explora pessoas; a responsabilidade não é minha.

Lembrei daquela música que diz: “Eles querem te vender, eles querem te comprar, eles querem te matar de rir, querem te fazer chorar”. Daí vem a pergunta: “quem são eles? Quem eles pensam que são?”

A gente vive usando esse tipo de afirmação: eles fazem isso e aquilo só para a gente comprar mais. Eles estudam as músicas “chicletes” só para que que a gente as ouça o dia todo. A indústria, a mídia, as autoridades, a televisão, as redes sociais… quem são eles? No momento em que pensamos nesse “eles” como um algo não humano, um sistema, tendemos mais ainda a obedecer. Não sabemos quem são eles, mas sabemos que eles mandam e desmandam. E nós não gostamos, mas, fazer o que?

Isso parece explicar porque desde que o mundo é mundo, existe a boiada e alguns poucos que conseguem transformar valores em ação e não obedecem – ou um terço que não seguiu com o experimento até o fim.

O filme termina com a seguinte frase: “Você poderia dizer que somos marionetes. Mas eu acredito que somos marionetes com percepção, com consciência. Às vezes, podemos ver os cordões e, talvez, a nossa consciência seja o primeiro passo para a nossa libertação.”

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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