segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Divagando acerca da futilidade

Por: Alberto Silva

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O dinheiro é importante, mas será ele mesmo constitutivo de uma personalidade idônea nas sociedades capitalistas?

Esse não é um daqueles momentos em que se diz que o dinheiro é incapaz de comprar a felicidade, mas tem sido a chave essencial para obter coisas materiais e imateriais importantes que compõem a nossa trajetória – e que de certa maneira fazem as nossas vidas mais interessantes. Aliás, seria hipocrisia dizer que uma viagem, um livro, um jantar diferenciado, a autonomia de poder escolher pequenas coisas que se deseja e que tem custos ou mesmo uma roupa nova são itens descartáveis no dia a dia. Não irei por esse caminho, até mesmo por ser essa a trilha dos clichês corretamente datados. Moedas e cédulas fazem de tudo um pouco – e são capazes de ir do desfrute à aniquilação – pondo em tema margens amplas.

No entanto, há tempos eu queria falar de um dos elementos que beira a todo minuto sob essas margens: a futilidade. Sim, pois quando confundimos as posses materiais com o próprio sentido da nossa existência, dando premência ao velho status que exige uma justificação corriqueira dos nossos atos mais simplórios, o que temos é a geração do homem e da mulher fúteis, que não conseguem expressar a amplitude daquilo que detém em termos claros de personalidade. Há um esvaziamento intencional da importância que os gestos podem ter em relação ao valor que os objetos, quebráveis como são, e as experiências, efêmeras no seu cerne (porém compráveis), possuem. Uma confusão que dilui e prejudica as nossas relações sociais.

Dilui, pois gera distinções óbvias de caráter simbólico, cultural e social, fazendo com que aqueles que desfilam pelas escadas da pirâmide social, e expressam sorrisos do topo, muitas vezes turvem os caminhos dos que vem de baixo. Sem uma engrenagem de mando e submissão não existem privilégios. Não há como alguns se locupletarem às custas de outrem em uma organização social na qual vigem os princípios da “desmercantilização” e da horizontalidade; por certo, bastante utópica e que se presta a testar os limites da nossa aceitação acrítica do “real”. Prejudica, pois inevitavelmente gera desigualdades e faz com que sejam celebradas.

Não há redenção na futilidade. Ela coisifica o eu, desvaloriza aquilo que é de fato importante (com ações encobertas pelo mantra da individualidade), aburguesa a verdade e anula anseios bastante “caros” de levar a sério as deficiências crônicas da nossa sociedade. A validade de algo ou alguém não está no preço, mas nas essencialidades que produz. E conduz. Bem longe da camarotização da vida, em que duas pessoas veem as mesmas coisas, uma regada a champanhes e outra assustada e descoberta como na clássica foto do último reveillón no Rio de Janeiro, é que reside o sentido pleno dos fatos: a certeza sobre a crueza de uma sociedade em que a mercadoria venceu e, por conseguinte a futilidade triunfou.

Como construções históricas, no entanto, são mutáveis. A perenidade faz parte de uma linguagem que não pertence ao código das nossas instituições. Assim como construímos, desconstruímos. Aquilo que eu vejo é o meu mundo, aquilo que eu sinto também é o meu mundo. E por conseguinte, aquilo que eu sonho. A ilusão, por mais que esteja distante, traz uma dimensão repleta de oportunidades para repensar o conflito “ter versus ser”, a magnanimidade dos objetos a serem vendáveis – como o são mesmo os animais nas jaulas dos pet shops –, a estreiteza do ethos fútil e as combinações que nos limitam, principalmente no que toca à nossa sensibilidade, que permite o exercício da contra factibilidade diária. Mora nas pequenas pedras a possibilidade de quebrar grandes vidraças.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Estudante de ciência política, além de amante da área a qual se debruça diariamente, é também apaixonado por sociologia, cinema, literatura e, é claro, por vinhos. Comunista em política, keynesiano em economia e anarquista em cultura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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