terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Vigiar, Sorrir e Punir: As ilusões líquidas da Sociedade do Espetáculo

Por: Erick Morais

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As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas promoveram mudanças substanciais na forma como organizamos a vida em sociedade. Cada vez mais ligados à rede, o conceito entre o real e o virtual se modificou, de tal maneira que hoje muitos consideram que não há uma diferença entre uma coisa e outra, havendo apenas uma conexão e extensão entre ambas realidades, em uma espécie de realidade físico-virtual.

Apesar de muitas das características da modernidade líquida não serem exclusivas da contemporaneidade, é evidente que essas características se apresentam hoje com muito mais força e nitidez, haja vista as transformações tecnológicas inerentes à construção do mundo líquido moderno. Algumas delas aparecem no episódio “Queda Livre” da terceira temporada da série “Black Mirror” (na série inteira, inclusive). Nele, somos apresentados a uma sociedade em que todas as ações das pessoas são avaliadas pelas outras em uma espécie de rede social. As avaliações percorrem notas que variam entre zero e cinco estrelas, de modo a construir o score/nota que cada pessoa possui.

Dessa forma, as pessoas que possuem notas altas são bem vistas socialmente, além de gozarem de privilégios e acessos a bens e serviços que os sujeitos que possuem notas baixas não têm. Ou seja, cria-se imensas redes de poder, controle, vigilância e punição, a partir das notas que as pessoas recebem pelas suas atitudes, que são invariavelmente analisadas por um sem número de indivíduos, não necessariamente interligado às suas realidades.

A fim de possuir notas altas e ter acesso àquilo que é vendido pela sociedade como os requintes do prazer e da felicidade, as pessoas agem de modo totalmente superficial umas com as outras, chegando, por vezes, a beirar o ridículo e o nonsense. Aqueles que, por outro lado, buscam viver de forma autêntica e natural, sem se “preocupar” o tempo inteiro com opiniões alheias ou em causar boas impressões, são mal avaliados e vistos como perdedores, sujeitos marginalizados e excluídos de uma série de coisas em função das suas notas baixas.

A sociedade apresentada em “Black Mirror”, assim, se assemelha muito à nossa sociedade, à maneira como utilizamos as tecnologias e estruturamos nossas vidas. Como disse, muitas das características do mundo contemporâneo não são exclusivas dele, entretanto, ganharam maior dimensão em consequência dos aparatos tecnológicos desenvolvidos nas últimas décadas. Isso não quer dizer que o problema esteja propriamente nas tecnologias, mas no uso e na significação que nós as damos.

Querer, em alguma medida, aceitação social, ser uma pessoa querida, bem vista, bem “analisada” socialmente, é algo natural, que faz parte do processo de sociabilidade do ser humano. No entanto, isso deve acontecer com naturalidade e respeitando a subjetividade de cada um. A partir do momento em que ser aceito socialmente significa aderir a uma padronização comportamental, deixamos de ter algo que faz parte da natureza humana (a sociabilidade), para desenvolver uma patologia social, uma vez que uma sociedade de autômatos completamente iguais, não é uma sociedade de pessoas humanas.

O grande problema é que estamos gradativamente mais próximos de um estado patológico do que de uma sociedade realmente integrada, com os tecidos sociais fortalecidos. A integração existe de forma aparente por meio do uso e prosseguimento de protocolos determinados. Assim como no episódio da série, todas as nossas condutas são automaticamente avaliadas, como se todos estivessem verdadeiramente preocupados com as nossas vidas. Para os que seguem os protocolos, o resultado é sempre positivo, com aprovações, muitos likes e tapinhas nas costas. Para os que não seguem, nada pode ser feito.

Esse fenômeno da sociedade do espetáculo, em que o ter e o aparecer prevalecem sobre o ser, foi reforçado pelo desenvolvimento das tecnologias e das redes sociais, que, como disse Bauman, instalaram microfones nos confessionários e transformaram tudo em público ou potencialmente público. Dessa forma, tudo aquilo que fazemos ou temos deve passar pelo crivo da aprovação pública da rede, como se o nível de avaliação externa representasse necessariamente a verdade sobre o que somos.

Essa necessidade de aprovação constante revela quão narcísicos estamos, ao mesmo tempo em que também revela nossa condição frágil, fluída, volátil, líquida, como a dos nossos tempos. Além disso, essa estrutura demonstra o modo condicionado das nossas vidas, no qual dizemos e fazemos muito mais os que os olhares vigilantes aprovarão, do que o que realmente queremos. É a evidência da sociedade disciplinar que nos constitui, em que tudo é vigiado e punido, lembrando Foucault, apesar do véu de liberdade com que nos encobrem.

Embora, deva dizer mais uma vez que não há um problema propriamente em desejar algum tipo de aprovação social, em buscar integrar-se à sociedade, é preciso saber que isso não significa se despersonalizar e se converter em uma mera cópia. Bem como, não significa criar um simulacro de si e dos outros, para que se possa viver em uma bolha completamente artificial. Viver em rede, em comunidade, é muito mais do que seguir regras e protocolos que, no fim, atendem apenas a interesses individuais. É muito mais do que ganhar likes por ações falsas, receber sorrisos amarelos de pessoas superficiais, ter uma vida que não passa de uma caricatura malfeita de revista de fofoca e, sobretudo, ser uma pessoa cheia de dentes por fora e de correntes por dentro.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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