segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A Política Atual: Populismo, Narcisismo, Neurose e Paranoia

Por: Genialmente Louco

post

 

Para a psicanálise, o narcisismo é a incapacidade de reconhecer outras subjetividades. O outro é percebido, mas apenas como objeto de reafirmação do sujeito. Dessa forma, a diferença sempre é inferiorizada, ridicularizada ou excluída: existe apenas o eu. Diante dessa unidimensionalidade da percepção da realidade, todas as tentativas de exposição de um outro ponto de vista para o narciso são necessariamente vistas como mentiras. Se eu sou a medida que confere a realidade, outras medidas são inverídicas. Essa percepção da mentira pode ser apropriada pela neurose: não mentem porque não sabem, mas mentem porque talvez não gostem de mim. Em certa medida, essa postura não é tão incomum ou tão problemática. O problema é quando essa neurose escala para a paranoia: mentem porque de fato não gostam de mim e querem conspirar contra mim por essa razão.

O mesmo é verdadeiro para o narcisismo social, mas passando da primeira pessoa do singular para a primeira pessoa do plural: nós somos superiores, melhores e corretos, enquanto os outros grupos são inferiores, piores, incorretos. Pode servir para grupos étnicos, religiosos, nacionais e outros. Da mesma forma, o grupo narcísico não aceita as concepções de outros grupos, que são acusadas como mentiras. A neurose é mantida: os outros grupos talvez não gostem de nós, e por isso mentem. A escalada é a mesma para a paranoia: esses grupos não gostam de nós e por isso conspiram contra nós.

Vamos ao exemplo individual. O Zé da Silva é o nosso narciso, e ele não consegue – nem tem interesse em – entender a Maria da Silva (narcisismo), sua esposa, quando fala da carga emocional de ser mãe, esposa e trabalhar. Ele também começa a achar que ela não o ama tanto assim (neurose), por isso está reclamando da vida que o casal leva. Depois de um tempo, ele fica convicto de que ela o odeia e provavelmente está preparando o terreno para pedir o divórcio e fugir com um amante (paranoia).

Agora, o exemplo coletivo. Os americanos são o nosso grupo narciso, e eles não conseguem – nem têm interesse em – compreender outras formas culturais de ver o mundo, como o islamismo (narcisismo). Eles também começam a achar que esses grupos islâmicos não gostam da cultura americana (neurose), e por isso disseminam visões contrárias ao modo de vida americano. Depois de um tempo, eles ficam convictos de que esses grupos os odeiam e provavelmente estão arquitetando uma grande conspiração para minar as bases da cultura americana (paranoia).

Um dos grandes problemas aqui é: a convicção do paranoico, mesmo sem respaldo na realidade, é suficiente para justificar atitudes extremas. Em uma sociedade machista, o que será que o Zé da Silva poderia fazer diante da suposta provável fuga de Maria? E o que os americanos poderiam fazer ou desejar fazer com os muçulmanos que vivem nos Estados Unidos?

Como vimos, o narcisismo aliado à neurose pode escalar para um estado de paranoia que intensifica irrealisticamente a percepção do perigo, gerando insegurança às pessoas e aos grupos que não compartilham das visões do paranoico. Dessa forma, é urgente compreender os gatilhos dessa equação. Por que a neurose escalou para a paranoia? De onde surge essa neurose? Em quais bases sociais se estrutura o narcisismo do sujeito e o narcisismo de grupo?

As mudanças materiais que não alterem a constituição social que permite essa gradação serão mudanças conjunturais, que adiarão o problema, não combatendo a estrutura. Quão grave é esse quadro? Bom, os genocídios são exemplos de exclusão da diferença através de um mecanismo narcísico, neurótico e paranoico. O caminho parece longo até lá, mas o Zé já agrediu a Maria e os americanos já fecharam as portas para muçulmanos. Até onde vamos pagar para ver?

 

Autor: Felipe Alves.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Genialmente Louco

“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER