quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Os dias do meu pai…

Por: Malu Silva

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Diz o bom humorista, Paulinho Gogó, que “QUEM NÃO TEM DINHEIRO CONTA HISTÓRIA”. Isso é um fato cultural, que vem de longe, quando o homem, talvez nem sonhasse com a escrita. E realmente era coisa de quem não tinha dinheiro. Sentavam-se os camponeses, depois de um longo dia de trabalho, em volta de uma fogueira, junto com todos os outros moradores das aldeias, para mergulhar em histórias que aliviassem a realidade dura e cansativa.

Enquanto isso, nos lugares mais propensos a riquezas, acontecia grandes festas e comilanças e não havia espaços para histórias.

E toda vez que ouço esse jargão do Gogó, uma história me surge, porque dinheiro… bem, esse não tenho mesmo e, portanto, vivo de grandes histórias.

Ainda hoje chegou até mim dois ou três motes e fiquei pensando, o que contar, pois são tantas as coisas que vão passando pela cabeça. Ideias que se cruzam desordenadamente, sinapses que não são concluídas por conta de um turbilhão de inspirações que chegam para irem, no segundo a seguir…

Fiquei pensando na vida, que muitas vezes se arrasta e, resolvi peregrinar, sobre a minha futura velhice.

E você deve estar pensando, quem perde tempo, no auge da sua vida, com coisas assim, não tão agradáveis…

Dai, respondo-lhe, com tamanha propriedade que tenho – SÃO OS DIAS DE MEU PAI.

Faz pouco mais de cinco anos que meu pai teve um AVC, apesar de isquêmico, devastador e, após esse fato, uma saga iniciou-se na vida dele e na minha.

Única filha, pois os demais são homens, couberam a mim todos os cuidados necessários e, porque não, aprender a filosofar diante de uma doença que está à nossa frente todos os dias.

A aceitação não aconteceu de imediato. Isso leva tempo para cair goela abaixo e fazer todo o processo digestivo.

Precisei de muitas filosofias, principalmente as vãs, aquelas sem sentido algum, que muitas vezes nada acrescentam, mas que nos sustentam, para prosseguirmos nas funções diárias mais básicas, como a de respirar serenamente, quando se está perdendo o fôlego na desesperança.

Aprendi a olhar meu pai com outros olhos, a doença com outros olhos e por fim, o fim de nossos dias com outros olhos.

Depois da revolta e de tudo aquilo que não nos é compreensível, surge, de dentro dos lugares mais escondidos e desconhecidos de nós, uma ternura, uma delicadeza, uma paz e um assentamento.

Tudo vai se solidificando e nos preenchendo com uma massa vedante de compromisso e misericórdia.

Até então você tinha um pai e dali por diante você será o pai do seu pai… Será também um pouco de mãe e de médico e de malabarista para as demais coisas que você nem sonhava fazer.

Nunca tinha visto meu pai nu, em toda a sua mais profunda intimidade da alma e do corpo. Muito menos lhe tocado, sem que assim fosse permitido.

Mas parece que a vida vem cobrar-nos daquilo que nem sempre somos nós os responsáveis.

A família some.

O que antes era uma imensa agregação de conhecidos e desconhecidos, de indivíduos que se amam e se odeiam simultaneamente, vai embora, quase que para sempre e, sobra para nós os cacos a serem colados sem a devida cola, porque o que temos nas mãos é apenas um grude, viscoso, malcheiroso.

Fico a olhar para trás, onde tudo aconteceu.

Tento compreender onde a minha vida fragmentou, fazendo-me criar um novo caminho e começar de um ponto de partida qualquer.

Revi conceitos e redesenhei todas as perspectivas que já dominava.

As manhãs demoraram a florescer novamente.

O eixo demorou a se realinhar.

Minhas horas mudaram.

Um silêncio ensurdecedor e uma lacuna profunda tiraram-me o horizonte para que eu pudesse retomar a respiração como antes.

Meu pai perdeu tudo!

Perdeu os movimentos tão básicos.

Na verdade, perdeu todo o seu chão!

Hoje a rotina é outra. Porque, para esses casos, é preciso muita rotina e organização.

Seus olhos todos os dias se abrem, fechados num profundo sonho fragmentado.

Alimenta-se, banha-se, toma o sol de todos os dias, de acordo com a bondade de quem tem por perto.

Sou seu esteio. Sou o entremeio entre a vida e a sobrevida.

Sou as flores perdidas nos jarros da sua alma.

Somos nós eu e ele – solitários, no meio de infinitos transeuntes.

Na sua face vagueio e percebo que estou a caminho do envelhecer.

Não! Isso não me assusta!

Isso não retrai um só passo!

Não retomo passados e nem anseio futuros, mas peço todos os dias a mesma sabedoria que meu pai carrega, de receber seu calvário sem mágoas ou aflições, com força na alma e amor no coração.

Não tive filhos!

Esse agrado a vida não me deu!

Esse afago de infante que nos gruda nos seios e nos suga o açúcar para nos fazer doce depois.

Talvez minha velhice seja “eternos vazios ou imensas amplitudes” que jamais conseguirei apalpar…

Fico a pensar nos meus dias de velhice, talvez como nunca meu pai tenha pensado ou se preocupado.

Fico a visionar com solitude, abnegação e serenidade, os dias que, talvez nem cheguem.

O futuro é apenas “um punhado de areia ressequida que nos escorre pelas mãos”, como já dizia o poeta.

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Sobre o autor

Malu Silva

Professora Alfabetizadora, com formação em Letras e Pedagogia da Áudio Comunicação, escrevinhadeira de mim e do mundo. Andarilha das palavras e sonhadora por vocação.

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