sábado, 3 de fevereiro de 2018

Não sei quantas almas tenho

Por: Pedro Gonçalves

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Não sei quantas almas tenho. Só sei que quem tem alma não tem calma. Imerso em um mundo onde há possibilidades a esmo, sinto-me só.

Fernando dedicou seu ser em prol da arte, tal qual ele, faço asco em viver. Mudei tantas vezes que permaneci igual. Não me conheço, não me entendo, nunca me vi de fato. De tanto ser, só tenho alma. Minha existência consiste em pensar, pesar, ponderar. Meu corpo apático e inerte não sente, só tenho viver na alma, e tanto viver tenho.

Alinhando com Doyle, afirmo que sou só cérebro, o resto é mero apêndice. Ou melhor, sou alma, o resto é vulgar mediocridade. Quem pondera não tem paz, quem pensa cultiva o desassossego. Não é possível discorrer e ser. É impossível atar pensamento e vida, quem pondera não vive, quem subsiste não rumina. Pensar e viver são substancias heterogêneas.

Existo apenas e penosamente no mentar de Drummond, eu apenas observo obstinado e pertinaz meu próprio ser galgar o caminho despropositado que é o estar, o existir, o durar, o ser. Crio diversos eus sem ser nenhum eu realmente, suicido-me e procrio-me imensuravelmente infindo. Acabo-me por eremítico, só, entre inúmeras almas que crio. Desamparado, desabrigado, desacompanhado, desfeliz. Já não sei quantas almas tenho. Sou um efebo amantético a redigir cartas para ninguém.

Minhas almas vivem a morrer, vivem a me ver morrer lentamente enquanto apenas pondero minha existência. Sem saber realmente quem é o ignoto eu, as minhas almas decrépitas são como fênix sempre ressurgindo. Já não sei quantas almas tenho. Já não sei onde está meu risível corpo liliputiano. Sou ensimesmado e sempre serei.

Por isso, alheio, vou lendo como páginas meu ser. Absorto e indiferente existo como definiu Descartes. Sou apenas um assentamento, um lembrete no rodapé do que foi minha inútil existência. Já não sei quantas almas tenho.

Continuo meu interminável e perdurável reparo desdenhoso de meu pesar despropositado, esse limbo que já não me deixa reconhecer-me, Saramago já dissera ao ver meu trabalho de Sísifo: se podes olhar, vê; se podes ver, repara. Percorri já muito caminho dessa estrada que não leva a nenhum sítio, já não posso viver, só pensar, só reparar.

Já não sei quantas almas tenho, já não sei que Pessoa sou.

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Sobre o autor

Pedro Gonçalves

No meu peito não cabem pássaros.

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