domingo, 4 de fevereiro de 2018

A violência sexual como ferramenta de poder

Por: Guilherme Lima

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Nas ultimas semanas a temática dos abusos sexuais cometidos por grandes figurões do cinema hollywoodiano veio à baila. Estes escândalos sexuais causaram furor entre os grandes veículos de comunicação, mídias sociais e grupos feministas, expondo uma sombria realidade de parte do mundo artístico. Inúmeras atrizes americanas denunciaram e relataram casos em que presenciaram ou sofreram algum tipo de assédio sexual, seja ele verbalizado, mental, físico ou moral. Desta forma, uma vigorosa campanha começou com o intuito de desnudar ao publico e revelar boa parte das entranhas do modus operandi de muitos produtores e empresários de grandes estúdios de Hollywood, que utilizavam de seus cargos  para agirem como predadores carnais, chantageando muitas mulheres por favores sexuais em troca de papeis em filmes.

Uma série de protestos e manifestações, bem como movimentos, foram criados por grandes atrizes e outras celebridades, gerando grande polemica. Inclusive uma carta contraria, publicada e assinada por atrizes francesas, que veem estas denuncias e movimento como algo ligado a certo puritanismo. A carta originou uma forte critica por parte de grupos feministas, alegando que a carta assinada por importantes atrizes francesas ser uma forma de “passar o pano” para casos de abuso e assédio sexual.

Discordando ou concordando com algum lado, a discussão sobre o tema é extremamente importante, pois junto com ele é possível por em pauta o debate sobre as enormes desigualdades sociais entre homens e mulheres. No caso da área profissional, as mulheres ganham menos geralmente quando ocupam os mesmos cargos que homens, ou acabam sendo submetidas a humilhações no trabalho que tem em seu cerne conotação sexuais, como exposto pelas atrizes de Hollywood. Porém o que esta sendo um pouco esquecido dentro da pauta, é o reflexo de uma ferramenta de dominação utilizada há muito tempo nas sociedades humanas como um todo: a violência sexual.

A violência sexual perpassa em uma relação tácita de dominação de um corpo sobre o outro, ter a posse física de um individuo. Isto está ligado à superioridade física num primeiro momento, mas é sobretudo em posições de superioridade hierárquica, ou quando se está numa posição social superior, que ela acaba sendo instrumento para se ter proeminência de ditar suas vontades sobre o outro. Em outras palavras: “te violento sexualmente porque posso e porque tenho vontade”. É exatamente assim que aqueles que perpetram um caso de violência sexual, como o estupro, pensam, pois desta forma seus atos tem lógica através de um perverso raciocínio.

A ideia de superioridade social sobre o outro, acabou, deprimentemente, contribuindo para esta distorcida conclusão. Essa pressuposta noção de superioridade tem relação intrínseca com o sentimento de pertencimento, divida, posse, e é claro, de propriedade. Pensemos no caso mais claro disto, a relação entre senhor e escravo. No momento em que você escraviza o individuo, ele passa a se tornar sua propriedade, é coisificado e objetificado. Este pertence ao seu senhor, portanto está à mercê das vontades do amo, tendo que a este obedecer e se sujeitar a inúmeros tipos de violência, sendo a sexual utilizada como punição e exercida para demonstrar autoridade.

Outra relação em que fica claro a violência sexual como ferramenta de dominação e poder, podem ser exercidos por figuras com cargos de proeminência religiosa. Parte de um pressuposto divino e mitológico: Sendo considerado representante do poder divino na terra, muitos que possuem uma importante função religiosa, utilizam torpemente da fé dos fiéis de sua religião, para obter algum tipo de ganho mundano. Exemplos são lucrar com a crença alheia ou utilizar desta para por fim, conseguir que membros de sua congregação lhe prestem favores sexuais, pois caso não lhes façam, afirmam que seus seguidores “sofreram a ira divina” .

Mas talvez o caso mais emblemático, que tem muito a ver com os casos de escândalo sexual escancarado por estas celebridades da indústria do cinema, é a relação de propriedade que o homem acaba exercendo sobre a mulher. Em todas as sociedades com matriz patriarcal, ocorre uma objetificação da figura feminina, traço de uma cultura machista. Ela é posse do homem, seja de seu pai, e depois de casada, de seu marido. Se pararmos pra pensar nessa noção de propriedade que o homem exerce sobre a mulher, nas guerras por exemplo, o estupro como arma é na verdade utilizado não para aterrorizar ou punir a mulher, mas sim atingir o homem. Violentando a mulher, você está violando a propriedade de outro homem, invadindo e danificando sua posse, sua “coisa”.

A violência sexual faz parte de ferramenta para reprimir e controlar um indivíduo, uma ameaça constante a integridade humana. Mais do que o dano físico, acarreta profundos transtornos emocionais e psicológicos. Ela se torna ainda mais evidente para a mulher, bastando ver que para o homem quando este sai de casa a noite, seu maior medo é ser assaltado, já a mulher é de ser estuprada.

De todas as formas de coerção e violência, a sexual está diretamente ligada a um comportamento e cultura de uma sociedade. Ela tende a diminuir a partir de um amadurecimento coletivo, de evolução de pensamento e na aplicação de leis eficazes. É difícil erradicar em definitivo este tipo de violência, pois sendo um instrumento utilizado como mecanismo de dominação, sempre ele poderá ser usado para fins de exercer poder nas relações humanas.

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Guilherme Lima

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