domingo, 4 de fevereiro de 2018

O amor, o trágico e o humano em Romeu e Julieta

Por: Geylson Rayonne Cavalcante

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“Pena que o amor, tão lindo de se olhar, seja tirano pra se experimentar.”

Amar será sempre a condição mais poética do humano, logo porque a linguagem dos afetos não se explica por si só e a peça teatral do Bardo Inglês não foge à regra. Romeu e Julieta não é só uma história escrita para ludibriar corações apaixonados, é uma narrativa que faz brotar do ódio o amor mais bonito e as juras mais sinceras, revelando, de tal modo, o que de mais puro habita em nós. A paixão avassaladora dos personagens centrais nos instiga, nos dias de hoje, a repensar a intensidade dos amores que vivenciamos, incorrendo naquilo que de mais moderno há de se expressar: a superficialidade promovida pelo mercado das sensações.

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Desse modo, não é função da literatura definir o que fazemos ou como deixamos de amar, contudo, é bem verdade ser possível se relacionar com tamanha vivacidade que a própria natureza das emoções não consiga acompanhar o ritmo acelerado dos poetas que escrevem as histórias de amor que quase ninguém viveu. A construção filosófica da peça é sublime: temos todos os elementos de uma narrativa clássica, a sensibilidade de Romeu, o encanto de Julieta, almas que se comprometeram umas com as outras antes dos corpos entrarem em contato (para o platônico: o amor ideal), beijos providos de significado, amantes do tempo, admiradores da verdade; Shakespeare e a receita para a ilusão. Quem não gostaria de ser amado como em épocas de outrora?

“O amor é fumo de um suspiro em chama que faz brilhar os olhos de quem ama; Contrariado, é um mar feito de lágrimas; E o que mais? Critério na loucura, trago de fel que preserva a doçura.” 

Sentimento louco, arbitrário, mas lindo de se viver; os amantes, objetos de uma arquitetura divina, se deixam levar pela temporalidade dos afetos, se entregam, dão tudo de si. Hoje, quem muito se doa acaba no silêncio escuro da solidão, na amargura da rejeição; corações perdidos aqueles que não sabem como receber o que o outro tem a ofertar, e assim, suscetivamente, o amor perde espaço para o que é temporário. Não se lamente: seu caso é diferente, afinal nunca nos encaixamos naquilo que rejeitamos, por isso, somos indiferentes à quem tanto deposita chances de felicidade em nós. Com Romeu e Julieta não é assim, e dói saber que amores significativos, em sua grande maioria, não fazem parte de nosso tempo. Afirmação pessimista por excelência, no entanto, veja seu redor, vislumbre os ambientes festivos que frequenta e descubra se há ou não emoções nos olhares, significado na presença ou, na melhor das hipóteses: coerência no que é dito. A cena abaixo ocorre no baile de mascaras, momento no qual os amantes se encontram pela primeira vez. Olhos, dois olhares. Condenados pela rivalidade entre suas famílias, sujeitos a viver o impossível, mas, lá no fundo o amor não se trata disso? Nesse jogo, as escolhas dão as cartas.

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“Ela é que ensina as tochas a brilhar, e no rosto da noite tem um ar de joia rara em rosto de carvão. É riqueza demais pro mundo vão. Como entre corvos pomba alva e bela entre as amigas fica essa donzela. Depois da dança, encontro o seu lugar, pra co’a mão dela a minha abençoar. Já amei antes? Não, tenho certeza; Pois nunca havia eu visto tal beleza.”

De repente só há ela, e o restante deixa de existir. Julieta encantou Romeu e o amor condenou os dois. É triste? Talvez. Shakespeare construiu uma história para a posteridade, uma história que ensina o quanto nossas escolhas refletem quem somos; provavelmente, as bases linguísticas e poéticas do autor se deram de acordo com alguma experiência passada, com alguma tragédia vivida. Cabe a nós romantizar o trágico ou não, interpretar com ilusões o que a realidade impõe a contra gosto: não conhecer do amor é pior que rejeitá-lo. Quantas vezes a gente deixa de viver grandes paixões, únicas por sinal, em nome do superficial e do temporário e, mesmo assim, somos condicionados a tomar decisões que a razão nem sequer cogitaria em realizar?

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“Querida Julieta, por que tão bela ainda? Devo crer que a morte etérea está apaixonada, e o esquelético monstro a prende aqui pra, neste escuro, ser a sua amada? Só por medo que sim eu fico, e jamais do negror deste palácio hei de partir. Aqui sempre estarei, com seu criados vermes. Aqui mesmo eu hei de repousar por todo o sempre, e libertar da maldição dos astros a carne exausta. Olhos, um olhar. Braços, o último abraço! E vós, ó lábios, portal do alento, selai com este beijo pacto eterno com a morte insaciável.” 

Nada é perfeito, nem no teatro, nem na vida. O amor, como esperança última, não goza de valor nos moldes atuais do viver cotidiano, chegando a beirar o ridículo aquele que expõe o que sente, que declara os próprios afetos, que exprime em frases dialéticas tudo o que o coração abriga. Romeu e Julieta, como dito no inicio, não é um texto com um final feliz, mas com um desfecho necessário: o felizes para sempre não faz parte do humano. E a lição é justamente essa! Shakespeare inspira a viver a real, tal qual Nietzsche com seu amor-fati. Aceitar a mortalidade dos corpos e viver genuinamente cada segundo com a devida intensidade é a forma sublime de enxergar os afetos como eles a nós são apresentados.

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Sobre o autor

Geylson Rayonne Cavalcante

Um substrato do universo.

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