segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Porque somos todos como casas

Por: Juliana Santin

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Rubem Alves escreveu uma crônica em que usa uma metáfora muito bonita sobre nós mesmos e uma casa. Conta que, em sua infância, visitava a casa de seu avô, mas não passavam muito da sala de visitas.

A sala de visitas era perfeitamente impecável, com seus móveis, lustres, quadros, enfeites, vista, janela… Mas as visitas não podiam passar de lá. O interior da casa, a intimidade, era fechada a sete chaves. Segundo ele, a sala de visitas daquela casa – e de todas as casas – ficava justamente na entrada, para que as visitas não passassem de lá. Assim, somente conheceriam a parte arrumada da casa, a parte que não tem bagunça ou cheiros esquisitos.

No entanto, é justamente na cozinha que fica o coração de uma casa, onde são feitas as alquimias culinárias, onde o fogo arde, onde os cheiros afloram. Ao lado da cozinha estão banheiros e quartos, de onde também surgem odores e ruídos suspeitos (sempre há a possibilidade de gemidos de amor ou de dor na intimidade de uma casa).

Porém, poucas são as pessoas que têm acesso ao interior de nossa casa. A maioria não passa da sala de visitas. Quanto mais linda e sofisticada for a sala de visitas, mais as pessoas consideram que essa é uma casa de sucesso, chique, rica.

A sala de visitas é a fachada, aquilo que se mostra. O problema é que há muita bagunça dentro da casa, muitos odores e gemidos – de todas as casas. E quando o cuidado é extremo com essa fachada, há um cuidado extremíssimo, redobrado, em fechar o interior a mil chaves, pois isso poderia destoar e afastar visitas que gostam do luxo da fachada.

Visitas podiam entrar, mas não podiam penetrar. Os segredos da casa ficavam assim protegidos… Ali se assentavam as pessoas de cerimônia, em ângulos retos, os homens de pernas cruzadas e botinas engraxadas, as mulheres de joelhos unidos. Servia-se cafezinho com sequilhos, e a conversa acontecia dentro dos limites de uma etiqueta silenciosa que todos respeitavam.”

No entanto, o tempo gasto com a sala de visitas e a preocupação quase doentia em manter a tal fachada impecável faz com que as pessoas acumulem bagunças e sujeiras no interior da casa. Quanto mais se acumula a bagunça, mais a pessoa passa a evitar ficar dentro da casa. Os entulhos se acumulam e acontece de ter cantos tão assustadores e desconhecidos que a pessoa evita até de olhar.

Ele fala nessa crônica sobre algumas coisas que não tem como fazermos sem bagunçar e sujar a sala de visitas, como, comer caqui. Comer caqui faz sujeira e bagunça e precisamos voltar a ser crianças para que possamos fazer isso.

Na cozinha também se comem os caquis, coisa impensável na sala de visitas. Podem imaginar as visitas de cerimônia, com as mãos e bocas lambuzadas? Quem come caqui tem que aceitar ser criança.”

A partir desse texto, concluí que, quando somos crianças, nos divertimos muito comendo caqui e bagunçando na casa. As crianças não gostam da sala de visitas, onde precisam ficar engessadas em um canto, quietas, para não causar estragos que os adultos não gostam. Assim que podem, correm para dentro da casa e vão para a cozinha, acompanhar o preparo dos alimentos, raspar panelas de brigadeiros e se lambuzar de caqui ou manga no caroço.

Acontece que, quando crescemos, a fachada vai ganhando uma grande proporção da nossa vida. Começamos a passar muito tempo nela e a criança que somos começa a atrapalhar. Assim, não resta outra saída: colocamos a criança bagunceira e barulhenta para dormir por tempos cada vez maiores, para que possamos exercer nossas atividades da fachada para fora.

Até pouco tempo atrás, minha criança também dormia. No entanto, quando fiquei doente, minha fachada pegou fogo, tudo foi destruído. Precisei, então, da ajuda da minha criança para reconstruir minha casa. Primeiro, fiz as pazes com ela. Depois, dei a ela o comando de tudo. A minha criança, então, me ajudou a construir uma fachada onde ela também pudesse se sentir bem!

E foi isso que fizemos juntas: minha sala de visitas hoje não tem nada de luxo, não é impecável em termos de organização, está cheia de pelos de animais, porque está cheia de animais, toca música o dia todo (de Beethoven à Elis Regina), tem livros espalhados por todo canto, quadros nas paredes e certamente tem cheiro de café – do café da minha mãe, que é o melhor cheiro do mundo.

E ela vai mudando a decoração da sala conforme sente vontade. Tem gente que não gosta muito, acha meio bagunçada, meio fora do padrão, não curte café nem tampouco animais. Tudo bem. Visitas que não se sentem à vontade não precisam ficar. Na minha casa é assim: fica quem quer.

Recentemente, li na internet um trecho do livro Lanterna Mágica, de Ingmar Bergman, que fala sobre Bach. Diz o trecho que, ao retornar de uma viagem e descobrir que sua esposa e filhos tinham falecido, ele escreveu em uma de suas partituras a seguinte frase: “Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim.”

Acho que Bach se referia à criança que morava dentro dele. Se há pessoas que não colocam a criança para dormir são os artistas. Bach provavelmente mantinha bem viva a sua criança, comendo caqui e raspando panelas de brigadeiro. Isso fazia com que, mesmo diante de coisas ruins, o sofrimento aparecesse, mas a alegria de viver continuasse lá.

Somos todos como casas. Até pouco tempo, eu acreditava que todos tinham crianças vivas dentro de si e que bastaria que minha criança agitasse sua imensa alegria para que as outras despertassem. Infelizmente, no entanto, constatei que a fachada já congelou o interior das casas da maioria dos adultos. E o despertar das crianças que ainda permanecem vivas, apesar de em muitos casos já estarem na UTI, só pode acontecer de dentro para fora.

É por isso que as relações também andam tão superficiais. Ninguém tem coragem de colocar outras pessoas dentro de casa. E o medo que se descubra a bagunça que tem lá dentro? E o medo que a criança desperte de repente e queira brincar? Apesar de ser uma alegria imensa ter outra criança brincando com a gente dentro de nossa casa, crianças quando brincam também se machucam, se desentendem, sangram, choram. Fora que corre-se o risco de ser abandonado no melhor da brincadeira! Daí sua criança vai chorar. Melhor mesmo é manter a segurança: sala de visitas está ótimo. Não gera muita alegria, mas também, não tem grandes riscos.

Deve ser por isso que hoje escolho a companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida. Minha criança não tem mais paciência para lidar com fachadas e salas de visita.

Há um trecho lindo do livro O Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, em que ele fala do menino Jesus que teria fugido do céu e vivia com ele, em sua aldeia. “É uma criança bonita e de riso natural (…). Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. (…) E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

Ele dorme dentro da minha alma.
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono”.

Fernando Pessoa também mantinha viva sua criança, que era o que permitia que ele fosse poeta. “Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas”. Como não lembrar de Adélia Prado que disse que quando Deus lhe tira a poesia, ela olha pedra e vê pedra mesmo? São nesses momentos que o menino dorme e nós perdemos a poesia do olhar. O menino Jesus de Fernando Pessoa era a criança do interior da casa.

Assim, finalizo o texto com o chamado de Rubem Alves: “é preciso que nos assentemos juntos ao redor do fogo para ali falar sobre o fogo que queima dentro dos corpos que a sala de visitas congelou.”

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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