segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Rio de Janeiro, Creta e Cartago

Por: Rogério Mattos

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Os estrangeiros quando vem ao Rio de Janeiro parecem não se sentir confortáveis nem com a pronúncia do nome da cidade, misto incompreensível para muitos cariocas até determinada etapa da fase escolar. Se a pronúncia não é simples devido ao fato de ser uma combinação invulgar, talvez preferissem que a cidade tivesse o nome de alguma santidade católica como tantas outras, ou, no melhor dos casos, o nome de uma rainha ou de uma deusa do paganismo. A beleza não contestada pela grande maioria dos visitantes, junto a determinadas atividades turísticas aceitas pela boa fé pública, ainda que não necessariamente afeitas aos padrões éticos que dizem ter alcançado os países do Atlântico norte, remete a cidade a esse misto de adoração sagrada e culto orgiástico que poderia constituir como que um pseudônimo da capital brasileira da afetividade.

Capital cultural do país quase simultaneamente ao período em que foi capital federal, no Rio existe uma economia subterrânea que tanto pode mantê-lo como casa falida, porém com as portas ainda abertas ao comércio, como casa de altíssimo requinte cujos produtos valem incrivelmente mais do que seu valor real. As prostitutas baratas, as mansões ou coberturas caras, a avenida de táxis a caçar clientes com a mesma avidez com que os pode ignorar, o terno alinhado e de grife no sol escaldante – todos esses possuem valores transitórios (avidez por putas, cartão de crédito estourado; mansão requintada, comensal instalado; táxi barato: “até ali vou te cobrar mais caro”; terno e sol, coco e conversa fiada). A vitrine se mantém a mesma, como nas ruas de Amsterdã, como as relíquias do Vaticano: moedas de troca fácil de acordo com as conveniências e com as circunstâncias. Com todos os percalços a vitrine se mantém, os letreiros continuam acessos: assim é o Rio de Janeiro.

Portanto, agora sem o risco de acharem que repentinamente enveredo pela literatura fantástica, posso começar meu relato.

Creta e Cartago se encontraram de repente quando iam pegar o elevador. Esbarraram uma na outra quando saíam de seus respectivos apartamentos, uma procurando alguma coisa na bolsa enorme que caberia compras do supermercado para todo um fim de semana, do café a janta, a outra distraidamente olhando o trabalho da manicure nos pés, depois nas mãos, daí averiguando as bijuterias escolhidas, do pulso, a que cai sobre o busto, e antes de alisar e apalpar o cabelo pela última vez para conferir se de fato estava bom, deu de cara com Creta, esta também olhando bem assustada para a desconhecida. Cartago só foi lembrar minutos depois de seu penteado, lembrança agravada pela do esbarrão, que poderia ter desfeito seu aparatoso trabalho capilar matinal. Creta achou que poderia ter se machucado: imagina se na rua, ao tentar se enganar que era fácil encontrar os objetos naquele bolsão labiríntico – e procurasse e procurasse, e se enganasse e se enganasse –, e, de repente, topasse num buraco? Manejar a bolsa, se equilibrar no salto e ainda jogar os cabelos para trás com aquela displicência calculada não era trabalho para qualquer uma. Um esbarrão qualquer não iria lhe fazer perder a pose. Cartago, pelo contrário, ficou algo desnorteada, já que profundamente concentrada na perfeição de seu visual, quase como se quisesse que ele fosse uma espécie de foto remota, que perambulasse, mudasse até os ângulos de visão, mas que estaria sempre retratando aquela pose perfeita.

Uma gostava de ser auto-suficiente como uma deusa. A outra, bela e imaculada como uma princesa virgem. Esta, envergonhada, pediu desculpas pelo descuido, pois não costumava encontrar vizinhos de manhã bem cedinho, no corredor. A outra falou para não se preocupar, pois vivia com a cabeça na lua, e que às vezes era uma tarefa ingrata achar um simples batom em sua bolsa. Por exemplo, você está num elevador com um bom espelho (às vezes não tão bom assim), pega rápido o batom que está naquele fundo falso de dentro da bolsa – propositadamente pequeno para essas coisas mais práticas – e começa a retocar o “look”. Daí a porta se abre de repente, você estava dando aqueles últimos detalhes – os mais importantes – e fica com uma vergonha, natural, das pessoas te olharem descontraidamente num gesto que não deixa de ser íntimo. O que você faz? Acaba de passar rapidamente o batom pela boca, como se você fosse a mais prática de todas as mulheres e tivesse naquele momento não num gesto íntimo, repleto de toda a exclusividade desse ato, inclusive os excessos imaginativos, mas simplesmente cumprindo com um dever, com uma obrigação profissional de todas as cidadãs que se capacitaram para serem chamadas de mulher. Na verdade, se você puder, coloca um dedo no ponteiro do relógio – para o tempo dar uma paradinha – e com o outro você retoca toda a maquiagem, se contorce e ajeita a sobrancelha e o sutiã, o espartilho ou o cabelo que não ficou tão bom quanto estava antes de iniciar a re-maquiagem. Creta, claro, não falou nada disso para a desconhecida, apesar de toda essa história se desenrolar dentro de sua cabeça num átimo. Só conseguiu gesticular, apontando para a bolsa e dizendo: “Sabe como é, essas bolsas são um problema…”.

Cartago riu, pois imaginou, também sem perceber, como um flash em sua mente, toda aquela história, ou uma parecida, passada na mente de Creta. Conhecia aquele estilo – ao levantar as sobrancelhas, espantada mas de maneira irreverente, falou essa frase sem ao menos expressá-la mentalmente, ou seja, em palavras inarticuladas ouvidas só por nós mesmos e por mais ninguém. Ficou um pouco enrubescida tanto pela situação constrangedora – o esbarrão – como até por seus pensamentos subseqüentes, ainda que só passasse a ter noção minutos depois das palavras provocadas por aqueles pensamentos. Creta riu também do absurdo da situação, ainda que perfeitamente cotidiano. Eram duas mulheres bem resolvidas, de meia-idade, como se chama, e sem mais pudores do que o habitual.

Existe toda uma problemática astrológica, vamos dizer assim, debatida em meios que não se consideram tão místicos assim, sobre a duração das temporalidades e da simultaneidade das diversas durações. A identificação das duas mulheres, mesmo num encontro tão fortuito, num acidente perfeitamente compreensível, põe em cheque determinadas concepções que talvez possamos denominar de “simultaneidade da eternidade”. Claro, eram dois mundos distintos que se encontravam naquele momento, duas eternidades distintas, mas não por causa disso estranhas uma a outra. Falou-se muito nas eras passadas do confronto entre cristãos e pagãos sem se ater na multiplicidade de características inerentes a cada grande grupo assim denominado. O debate sobre uma certa “mistura de estilos”, o que mais tarde irá opor as camadas eruditas das populares, começa a se ater nas eternidades distintas em cada configuração temporal. Não obstante, o que quero dizer? Como se dá a procura por aquela paisagem, aqueles personagens, aquela situação dos diálogos interiores que não sabemos como irão factualmente serem realizados? Daí também se deduz da distinção entre a eternidade dos sonhos e a da memória. É a partir dessa distinção que moldamos nossa disposição frente ao futuro, sem ao menos, claro, concatenar das possibilidades concretas pressupostas em nossa imaginação. A concretude nada diz ao ser humano quando extravasa as barreiras do presente e toca os limites de suas possibilidades enquanto ser pensante, ou seja, enquanto ser dotado de ampla sensibilidade, e ator da vida até quando nega a se afirmar como agente social.

Qual a diferença, portanto, do diálogo que se dá instantaneamente, como o que rapidamente relatamos, ainda que neste possamos entrever uma série de noções pré-refletidas e que suscitam ou não o desejo de serem melhor desenvolvidos, e o diálogo de fato, o que pode demorar horas, meses, anos décadas e, quem sabe, séculos, num mesmo confronto entre personalidades distintas e ainda assim totalmente afins? Falamos de almas gêmeas ou algo do gênero? Porque se são gêmeas brigam muito – isso, pelo menos para mim, é ponto pacífico. Enfim, falo daquela grande conversa, a que não termina nunca, e em incontáveis caso é simplesmente chamada de saudade. Como transportamos tal saudade ao desconhecido? E se conhecido for? Creta e Cartago depois de certo tempo do esbarrão, desculpas para lá e para cá, elevador chegando, bom-dia bom-dia, porta da portaria, rua, quando entardecia em qualquer outro dia, se reencontraram. Cartago relembrava Aníbal, o grande, – segundo suas lembranças, assim o chamava – e queria passar com uma tropa de mamutes na fila interminável do metrô e ser conduzida como uma rainha para sua casa. Mas lembrou também dos profissionais do trem ultra-moderno com profissionais de olhos puxados e a eficiência oriental: empurradores de pessoas para dentro dos vagões. Que Aníbal viesse e enlatasse esse tanto de pessoas dentro do vagão do metrô: seria um sofrimento, porém rápido e passageiro. Ah, Aníbal!, quem ainda não fez o elogio da tua brutalidade…

Aníbal era bruto, porém não cruel. Arrumaria uma desculpa e sairia se metendo por dentro da fila, empurrando velhas, crianças e quem mais aparecesse. Pronto, dois tíquetes, vamos para casa, ainda que enlatados. Teve que parar com isso depois de décadas de uma mania bem feia, agora menos usual em certas circunstâncias devido a popularização de amplos setores do serviço público. O metrô era público, de Botafogo a Tijuca. Depois chegou ao subúrbio. Mas agora, com a formalização do trabalho em alta, espécies de “cartões de fidelidade” (só existia no avião) com o transporte coletivo, e, o mais importante, a dinamização da economia, Aníbal não conseguiria simplesmente dar uma carteirada e furar a fila quilométrica. Com sua carteira pendurava até conta em bar. Ah! Velhos tempos. Agora para se ser vip tem que suar muito mais a camisa. Se bobear, antigamente, até com carteira de escola pública se enganava os bobos. Ainda mais no Rio de Janeiro… Agora, é técnico disso, analista daquilo outro, petroleira, e tantos outros cargos que um simples servidor (só por ser federal) de nível secundário, não consegue mais furar sequer uma fila. Ainda mais na terra dos espertos, o Rio de Janeiro… Foi com esses pensamentos que encontrou Creta: “Não, Aníbal não servia para mais nada”. Devido ao mundo da “correção” e da técnica, pelo menos é o que parecia. Isso é real? Isso dura? Isso é bom? Antes era pior? Sei lá! Nenhua configuração que respondesse a essas perguntas poderia durar frente a espécie de insatisfação que estará presente em todos os grandes poemas.

No mais, estava velho. Sapato horrível! Passei ali e comprei esse aqui. Olha que lindo, baratinho, vagabundinho, mas quebra um bom galho. Foi assim que começaram a conversar Creta e Cartago, na ponta extrema da fila do metrô, que atravessava toda a larga calçada do quarteirão de Copacabana, e quase pulava para a outra esquina. Uma achou a outra simpática e vice-versa, o esbarrão não seria um empecilho para qualquer amizade, muito pelo contrário, a convivência dentro de um prédio às vezes constrange, agora somos outra pessoa – eu te conheço? Falou Cartago para si mesma quando vislumbrou ao longe a conhecida. A bolsa de Creta até que estava bem discreta, meio escondida por entre o braços, parecia uma pessoa normal. Mas não é que ela deve ser? Então foi com o mesmo sorriso algo contido que se reencontraram. Relembravam, claro, a cena primeira de seu encontro. A outra já veio logo falando do sapato, uma história meio esdrúxula que é perfeita para se começar qualquer conversa. Esdrúxula não tanto pelo conteúdo, mas é porque Creta veio logo contando o caso como se conhecesse a moça desde sabe-se lá quando.

E conversaram e a conversa foi dos sapatos velhos para os novos, na verdade dos novos que Creta mostrava para os velhos que acabaram de entrar no lixo, e aí “sabe, menina”, aparece outra história, quando vêem sem querer estão idolatrando Édipo, pai, mãe, etc., “vamos deixar pra lá essa conversa deprê”, “você já foi em psicólogo?”, “Deus! não quero nem chegar perto. Parece atestado de doença incurável, daquelas que a gente pega no ar”. É AIDS, é câncer, é o redemoinho, para lembrar Guimarães Rosa; a Guerra Fria, o Golpe – erro, ilusão e loucura. Não falaram isso porque são palavras pesadas, como também não vão ficar gastando ilustração à toa. Falam simples. Falam com todos. Isso é um princípio, como os mitos. Das epopéias, das versões ou como encarnam o mito fundado na carioquês, são outras histórias. O falar com todos também é hipocrisia, também é carência. E de Édipo foram para a vida, casos bonitos, engraçados, tristes, trágicos – multiplicidade. E sem querer ficaram amigas para a vida inteira. Não que isso vá realmente acontecer. Pelo menos na memória isso irá acontecer. Nem tanto na memória, talvez. Mas na boa invenção, no amor, no calor provocado pela entrega naquele momento de sinceridade. O momento de ampla e irrestrita sinceridade, a abertura mais do que inocente para todo aquele bem que nós a cada segundo ansiamos – daí se inaugura a Memória.

E o que tem a ver se a memória é um fenômeno personalista, atrelado definitivamente a pessoas ou lugares, ou se, antes, a memória confunde-se com as nossas próprias aspirações futuras, num sentimento onde não se distingue o antes do que queremos para depois? No primeiro caso, a memória é quase uma presença. Na verdade, é uma presença de fato, um dado material. Quando encontramos algum objeto, música, sonoridade, imagens que nos façam lembrar de algo querido, sentimos a presença corpórea daquilo, sua reincorporação no presente ainda que como encantamento – falo aqui no sentido dos mortos de Guimarães Rosa, os quais não morrem, mas ficam encantados. É um encantamento esse produzido pela presença memorial dos mortos, os quais tingem-se desse halo, perdem as formas brutas, e só através de uma certa doçura encontram caminho na palavra dos vivos. A falha nossa é desvincular a morte do futuro. Mais propriamente, esquecer da centralidade do futuro, ou seja, da morte. Mas como a morte é futuro é exatamente por isso que com ela não devemos nos preocupar. Devemos nos preocupar com o futuro como sempre pensamos em termos futuros, ou seja, em termos de ascensão. Mesmo o criminoso se vê aprimorando suas formas de perversidade. A alma melancólica igualmente aprimora seus instrumentos de suplício íntimo. A ascensão intrínseca à morte é aquela que nos fala do encantamento. O que Rosa quis dizer com isso é que o estado íntimo sentido por nossos mortos queridos não é diferente daquele que nos suscita a memória. É a doçura que procuramos sentir na alma como algo perene a condição da ascensão propriamente dita. Doçura no sentido em algo que está para a gente mais próximo do sentimento suscitado pela memória do que pelos objetos. Assim, o adorador de ídolos é a alma melancólica que se aproxima do crime, que encontra no suplício da consciência a perversão da lei que deveras compreende. Aí está uma forma de gozo dentro da cidade partida.

O sapato baratinho comprado na loja da esquina rompe o cerco, atravessa a morte e os olhos de Creta estão repletos de memória. Quando aquela conversa irá terminar? Não importa o fim, o tempo, o quando a conversa aconteceu. Ela está impregnada de morte, de encantamento, e Cartago pode ser qualquer imagem fugidia, pois representa uma novidade. Qual novidade será? O que importa é que o encontro serve como a arrumação de um signo magístico, sem o sorriso de pedra das estátuas de barro ou pedra, sem a melancolia das catacumbas, sem a prontidão, a perversão da morte e todos seus horários certos, suas medidas, suas extensões no espaço. Estão mesmo na fila do metrô? Estão numa cidade perdida, numa região remota acessível não se sabe por qual mecanismo oculto, e as cidades da Memória desfilam por seus pensamentos sem sequer articular qualquer palavra. Elas gostaram uma da outra e sequer se viram anteriormente. A cidade partida não existe mais, as grandes distâncias da Antiguidade, os territórios imensos a percorrer, desérticos e ignotos. A cidade da memória é a cidade que queremos para o futuro, de um Rio de Janeiro não mais separado por uma imensa pedra, bela, sentimental, e fria e cruel, ostentando o Cristo enluarado, o Cristo da tormenta pós-cruxificação, o Cristo daquela hora em que ninguém consegue olhar sua face. A cidade não reconhece seus poetas porque os coloca em cada esquina. O que esses nomes verdadeiramente significarão? A cidade apegada, rude, tradicionalista, moralista e violenta. A propaganda do amor que recende sexo barato, aos estupros cometidos todas as noites nos sonhos dos patriarcas endinheirados, ao assassinato em massa das crianças cujos pais as ensinaram a idolatrar os ídolos pagãos, a melancolia do religiosismo que faz matar seus próprios filhos todas as tardes de muito sol e praia. Divirta-se!, eis o lema.

A fila do metrô esvaziou e a conversa continuou, e ela também poderia ter ocorrido em qualquer cidade, Florença, Lisboa, Berlim, Bagdá – cidades de memória que se repetem numa série interminável e são também Irajá, Meriti, e não Madureira ressuscitada enquanto assombração (os sambistas “globais”), mas Oswaldo Cruz redivivo enquanto Nilópolis (a necessária fabricação da memória nas cidades esquecidas). Creta estava apavorada, sapato, poema, Cartago, voltaremos de quê? O metrô ainda está aberto? Amiga, acho que você precisa de um psicólogo. Deus me livre. Mas não é?! Olha o que eu recebi. Achei bonito, com certeza. Pelo menos parece ser. Na verdade, não sei nem como leio isso. Não sei nem se leio. É bom ou ruim? Vê se você me ajuda. É porque você é tímida, amiga. Isso simplesmente se lê. Entender o quê? Mas para o quê serve? Ah, sim. Aí, acho que isso já é outra história. Se uma desconhecida conseguir me ajudar a decifrar essa história, vou ficar, vamos dizer, embasbacada. Não vou saber, com certeza, como agradecer. Mas você vai saber dizer para o que serve? Isso só lendo. Olha só.

Ela com os olhos da imortalidade

procurou-me certa noite enluarada

dizendo que a paixão a procurava,

paixão de leito e calma. E de saudade.

Os tempos se foram, consumiram-se as idades

da Terra ainda agora enlutada.

Onde a alegria, o doce sorriso da amada?

Certa vez, contaram-me acerca da imortalidade…

Seus olhos falam-me de melancolia.

Irei te esperar, eu sei, por toda a vida,

com versos tristes e tão caros.

Sem remédio cumpramos esta sina –

só no fim da jornada estará tudo pago.

Isto diz quem teus olhos, amor, sempre queria.

Parece que escreveram isso para uma morta. Cartago, você não entendeu então. Estão todos vivos. Você já viu antes alguém fazer alguma coisa assim, rimadinha? Só na escola quando as professoras ensinam. Mas é uma rima bem simples. Esse poema eu nem sei. No fim ele não desafina não? Não sei, a gente tem que contar os versos – pelo menos é o que aprendi na escola… Aquele negócio de A B C, sabe? Isso não importa. Queria mesmo é saber quem foi esse que você foi achar e que escreveu um negócio desses? Mas, calma aí, Cartago. Parece que você acabou de presenciar um crime, um homicídio, um estupro ou algo do tipo. Ela olhou bem para a amiga enquanto respirava e falou que era verdade. Quer dizer, nem parece um crime comum, mas aqueles com excesso de crueldade. A sua cara não demonstra isso. Mas demonstra o que então? Parece nojo, uma barata, um rato de quase um metro ou coisa que o valha. Creta não se enxergou realmente. Cartago queria dizer que perdoamos mais facilmente um estupro, um homicídio, do que um cheque sem fundo. Mas falar isso também é falar do futuro dos romances policiais numa sociedade que não trabalha mais com cheques, e tampouco permite o crédito barato. Por isso Creta desviou do assunto: isso é um rato, um monstro. Não é um crime, é uma merda. A merda, afinal, todos fazem, querendo ou não. É impossível ler poemas por métodos indiciários. Ele não deixa rastros. Ele é o que não existe, embora sorri para nós quando encontramos num vaso em que se esqueceu de dar descarga, num papel embolado que fica perdido no meio da bolsa ou junto a pilha de inutilidades feita de papel e tinta para os mais variados meios e usos. Simplesmente, ele não serve para nada.

Acho melhor voltarmos definitivamente às velhas fábulas do narrador onisciente para darmos cabo de nossa história. Não sei onde encontraram a velha figura do Pai no narrador, mas a narrativa católica tanto pode ser feita em primeira ou terceira pessoa, ou mesmo em fluxos de consciência, fluxos de má consciência, dos comentaristas midiáticos que espalham seus fluxos de merda por todos os poros daqueles que os ouvem. A narrativa auto-consciente encontrou seu ponto de apoio na crítica ao Pai, num discurso piedoso como o daqueles que gostam de nos alertar contra as mistificações, contra os modelos hidráulicos pelos quais se faz passar os fluxos de merda. O velho Édipo, o velho Hamlet, o pós-moderno Ulisses são nossos guias contra tudo o que é considerado formas excrementícias de fluxos ininterruptos e ultrajantes. O narrador não narra. O narrador confessa, é auto-consciente na medida em que submete tudo à lei do Pai, ao modelo edipiano de estetização do mundo íntimo dilacerado. Shakespeare pop, Aquiles arrumado por Hefesto para o casamento depois do qual irá subjugar sadicamente Heitor, Ulisses perdido no vendaval produzido pelas tempestades íntimas como se não existisse ciência antiga para se alcançar o Atlântico. Pop. Será que as moças acreditavam que em qualquer poema iriam achar esses modelos e por isso torceram o nariz como se visualizassem o presente oferecido por quem não deu descarga no vaso? Fluxos de merda, de más consciências, de pequenos eus dilacerados. Consultórios psicanalíticos e listas de best-sellers. Nenhuma música anima o mundo.

O narrador é a própria identidade da poesia, ainda que ligado a um fora, limitado por isso. E a morta chega como que para contar-lhe uma história. Esta sai do seio do narrador onisciente para se cravar no eu dissolvido daquele que escuta. Qual história? Ela não diz. O narrador onisciente é o eu dissolvido perscrutado por aquele que ouve a voz do poema. O ouvinte não se desfaz. A música só é ouvida posteriormente. Daí a necessidade da releitura de um poema que admiramos. Precisamos escutá-lo melhor. O eu se dissolve e é reabsorvido pelo poema, ele ganha a forma do poema ainda que por instantes. Nesse momento repentino a história se faz. No caso das duas moças que olhavam aquele soneto petrarquista-camoniano, ou seja, melancólico-maneirista, não sonhavam que Beatriz estivesse morta e guiasse Dante pelo Inferno. Não há mais interdições para os cristãos do céu devassarem o abismo, tampouco para os pagãos dos infernos ascenderem aos céus. Se Beatriz ainda aparece como alma, não é para fazer um “tour” na Disney celeste. Se ela é alma é somente para remeter a uma ausência, ausência enganadora que, por sua vez, remete a toda uma série onde se apresentam toda a poesia clássica em suas formas mais elaboradas, as quais não estão distantes do que compreendermos ser a canção. De quem é a canção? É nossa, sempre nossa. É de quem ou para quem tem relação direta com determinado sentimento que a canção nos provoca. Adentramos sua forma. A história que ela nos conta, porém, é variável. É a minha história e a de todos mais que a ouvem. E quanto a história do poeta? Ela não nos interessa, tanto quanto não interessa diretamente a um terceiro a nossa história. A história do poeta e a história da poesia são ramos do conhecimento profundamente dessemelhantes. Não por outro motivo, elas, em determinado ponto do desenvolvimento da sensibilidade poética do estudioso, do vivente da poesia, elas se completam entre si quase que perfeitamente. Nada apriorístico como o narrador onisciente edipiano, aquele que diz sempre “eu! não, eu. eu, sim! e só eu”, ou seja, ninguém, nenhuma arte. Nada em parte alguma, só um campo devassado em plena onisciência do eu narrador bem treinado, do técnico em auto-venda literária.

O tema da memória ainda é importante até essa parte do relato, do relato de um, de dois encontros, ou de todos os encontros até o fim. O sapatinho novo pode recontar uma história de milênios atrás. O namorado fez (ou seja lá como se chamava namorado em época antiga), era artesão, era simplesmente amante e improvisou algo que ficou bonitinho, ou a menina enlouqueceu e foi na loja, comprou mesmo porque quer se ver bonita. Por isso a épica é e não é moderna. Afinal, como intercalar a épica com diálogos no estilo platônico? Claro que nas epopéias o narrador também conversa, vemos sempre ele e seus personagens se pronunciar. Todas as divisões, afinal de contas, em determinado momento podem nos parecer artificiais. Dividimos para multiplicar. O dois da dialética é a forma mais simples de divisão. Do dois vem todos os outros números e não vemos mais o mundo no triste retrato preto-e-branco hegeliano. Nada é o mesmo. Nada é o que volta ou o que deveria voltar. Do dois nascem as séries, mas das séries chega-se ao dois e podemos ou não ver o um em cada uma das partículas. Não é tão importante o um sempre aparecer. Quem lê, por exemplo, o diálogo Parmênides, de Platão, e acredita que aquele que se apresenta a Sócrates como um mestre é uma espécie de herói shakespeareriano devassado, rachado, pela mudança imutável – quero dizer, um herói melancólico, trágico, não compreende que o sentido de mudança pode ser precedido pelo Um, sendo, portanto, o sentido de toda mudança o manter o sentido em relação a toda mudança. O Um não aparece. Ele se faz na mudança. Ele tem todas as formas. A pontuação, o ritmo em que se apresentam as palavras são só indicados. Quem lê preenche em si todos os ritmos e amolda as formas na forma com que compreende. Por isso nascem os desafinados. Os desafinados que procuram um ritmo maior e desafiam todas as formas em direção a uma forma ou indicação de formação superior, ou os rebeldes que submetem todas as formas à forma que acredita aprioristicamente, sempre para baixo, sempre a um eu que não se liga a nada. Assim encontramos novamente a dissolução do eu enquanto falência do Um. A dissonância da música das bestas, dos que querem submeter o mundo todo a um império, a uma oligarquia de caráter mundial – harmonia impossível caso nos entendamos como filho das estrelas, para além da poeira cósmica em que vivemos.

Proceder por totalizações para chegar ao ser é como encontrar o nada em todos os lugares a que se vá. Não existe totalidade, existem parcialidades, séries, eus e não Eu. O eu, o eu… Mas como o eu? Vestir-se. As bolsas das duas mulheres ligam-nas a um fora, as bolsas são uma interioridade devassada. O sapato novo, pulseiras de feirinha, brincos, colares, batons… As duas mulheres se devassam completamente enquanto conversam animadas. São capazes de trocar a roupa ali mesmo, talvez até suas bolsas. Uma adorou a outra. Daqui a pouco vão se vestir juntas para uma festa, um encontro, um enterro – até nisso irão trocar impressões. Vão contar também sobre como se despiram, o namorado ou aquele que é aceito como encarnação do desespero ou até o simples desesperado; a doença, a correria; a ausência de roupas, a vestimenta parcial, a parcialidade com que se vestiram devido a um evento inesperado. E o inesperado do sapatinho novo. E elas conversam e conversam, e uma segura a bolsa grande sem se cansar, a outra queria jogar sua bolsa longe, mesmo sendo pequena, e as duas queriam sentar e ir para casa e descansar ou fazer qualquer outra coisa. Mas ficam ali. Poderiam estar peladas também. Não viam ninguém. Nem ao menos se viam ou viam milhares de coisas pelos olhos da outra, mas sem verem-se a si próprias presentes naquele momento.

O todo é absolutamente nada ou simplesmente uma modalidade, um simulacro, da Idéia. O reino das Essências só é entrevisto nas andanças, no eu que se veste e se comunica de algum modo, principalmente se não o formalmente correto. Só nas parcialidades capturamos as essências, como nas ruas persistentemente íngremes de alguns pontos perdidos do Rio de Janeiro. Numa hora, casas portuguesas amarelas com seus grandes janelões pintados de azul, outras menos conservadas, verde claro contra a madeira da janela e da porta pintadas de verde musgo. Num relance da ladeira, os prédios gigantes, a partir dos quais nunca se pensou na construção de jardins. Essas casas portuguesas beirando as ruas estreitas de feitio árabe, mourisco, medieval, entrelaçam-se em ladeiras moldadas sobre o morro nos mais diferentes formatos. São vistas quase todas num relance na rua não muito longa que se prolonga na paisagem com os prédios como muralhas a nos tapar a cidade, como muros que nos contam a história da cidade. As ruas do Morro da Conceição, o próprio Morro, são como que os jardins que as construções modernas rechaçaram. Antigamente apreciavam-se os jardins pela sua própria beleza, mas também por darem o distanciamento adequado para se contemplar a casa em toda sua beleza arquitetônica. As pequenas casas portuguesas do Rio Comprido, do Morro da Conceição, de Santa Tereza, são como o muro longo das casas senhoriais. Muro atravessado por um corredor estreito pelas mucamas, pelos mordomos, escravos e serviçais da sociedade patriarcal. Hoje os herdeiros dos patriarcas atravessam esses corredores contemplando uma beleza perdida. Não mais a casa de dimensões senhoriais, mas o sempre limitador apartamento. Os filhos dos patriarcas brincam nos jardins da cidade como faziam seus pais quando eram crianças. Esses, brancos filhos de brancos, reconquistam o território da Memória e se fazem de portugueses pequeno-burgueses ou de escravos forros bem sucedidos. Brincam enquanto os filhos dos portugueses mais pobres e dos escravos, mesmo os mais abastados, foram se afastando mais e mais do centro da cidade. Toda a localidade sacralizada pelo samba é louvada pelos que hoje são os donos dos grandes latifúndios da Memória, porém não se arriscam a atravessar a Brasil, subir somente as zonas “gourmet” dos morros da zona sul e muito menos chegar à Baixada, aquela, sem Memória e muito poucas histórias. Para quem servirá nossa Memória enquanto não fizermos nela uma Lei de Terras, uma Reforma Agrária e um conjunto bem amplo de reformas universitárias? O fetiche do Centro ainda é o mais sacralizado de nossa cidade. O regime das deusas pagãs da modernidade, das muito admiradas prostitutas da zona sul da cidade, não possui nem um avo do lastro de historicidade que permeia as negras, as estreitas, as sofridas ruas do centro, apesar de João Antônio… Por isso ainda admiramos tanto ver nossa cidade em retratos em branco-e-preto.

Por que saí do Morro da Conceição para chegar principalmente em Santa Tereza? O Rio Comprido português, como vai? O português do longo rio que desaguava próximo ao território alagadiço onde hoje se encontra o prédio tão famoso do Piranhão – regatas eram realizadas nesse local – foi vítima da modernidade que tinge de cinza nossa cidade, cobrindo-a de viadutos e vergalhões (e olha que o Rio ainda gerou Gentileza), não muito distante da época em que a Baía e seus afluentes também se tornaram cinzas. Mas cinza também é a cor da Guerra Fria, e para além de dualidades muitas vezes artificiais, precisamos superar tal legado e colorir com as coras mais vivas a cidade nunca morta. Não posso escrever um tratado urbanístico aqui com o risco de perder de foco nossas protagonistas, suas bolsas, seus relógios de feirinha e sapatos improvisados. A conversa das duas foi mais ou menos no mesmo ritmo da que tivemos até agora, foram para todos os pontos e talvez não chegaram em ponto algum. Mas não é isso que interessa, pois não é porque não se tem nada para fazer (em qualquer hora que for) que vai se querer alcançar tudo o que se quer, porque ao final das contas sempre se vai querer se continuar numa série interminável, como as saideras de bar, ou as conversas intermináveis nos botequins que não são interrompidas às vezes nem com o intervalo de quinze dias, um mês ou mais. Sempre se volta ao mesmo ponto. Qual ponto? O ponto é que não defendo nessa conversa nenhuma solução “sustentável” propriamente dita. O cinza da cidade é fruto de mentes tacanhas acopladas à mentalidade vigente que absorvia os fumos produzidos em paraísos artificiais como o que acreditavam antepor Adam Smith a Karl Marx. São os que cantavam louvores aos enciclopedistas e acreditavam que assim substituíam ao Rei. À totalidade pressuposta no conceito de representação, passamos a divisar durações distintas, particularidades móveis, simulacros e minorias – esse o verdadeiro sentido de cor e não o verde habitual que pretende se sobrepor a tudo, inaugurando uma nova feudalidade.

Numa corrida de carro, luzes reluzentes entram pelas janelas. Poderia ser um chão de estrelas, já que quando olhamos para este parece que olhamos para cima. E os brilhos se sucediam à direita e à esquerda, por vezes bem na frente do carro. Postes como se percorressem a ribalta. Passagens. A Lagoa circundada por luzes como se ela própria, na noite, fosse a menina dos olhos sob pálpebras brilhantes. A maquiagem da bailarina que sorri com os olhos pelas palmas no fim do espectáculo – deusa ou Imagem? Quantos brilhos as duas divisavam naqueles vidros que tampouco eram espelhos? Um morro alto, bem grande, extenso. Quantas estrelinhas meio amareladas, outras um tanto claras, pequeninas e múltiplas? Andavam num táxi sem terem a mínima ideia de como se mantinham o calor que fazia brilhar aquelas luzes, dentro ou fora da cidade. Cidade sitiada, multiplicidades de motoristas, de luzes que parecem mortas por ninguém as querer encarar. Trabalho informal, memórias limiares, luzes ignotas. Adoro andar de táxi, afirma Creta. Rachando é melhor ainda, respondeu a outra.

Depois de desistirem do metrô superlotado e decidirem dividir a fatura do táxi, Cartago relatou um caso do tipo “só faço isso se você fizer aquilo” – liberdade negociada, verdade nos tempos em que o mundo foi dividido em duas esferas de poder; verdade agora para governos progressitas que só conseguiram governar assim, à sombra do neomacartismo. O absurdo do poema a fez lembrar disso, depois de idas e vindas sobre o significado daquela velharia que dizia ser um poema novo. Ah, sim!, pensou. Para algo ruim só mesmo algo pior. Estamos quites. Era como na época do regime dos militares, o qual só foi um regime dos militares propriamente falando, no mesmo modo que foi uma falsidade histórica, em qualquer sentido que se queira concebê-la. Como o regime de trocas de favores entre os que ocupavam o poder e os que o financiavam, as megacorporações e o sistema da dívida, não se sabia ao certo nem ao mesmo entre os oficiais a qual regime se estava servindo. Nem mesmo a palavra lealdade – tão ao gosto dos militares – tinha um sentido minimamente interpretável, já que as alianças eram mutantes e a lógica que obedecia ao poder não era a da caserna tampouco a da soberania nacional. Era como o oficial que depois de inúmeros serviços prestados ao poder dominante, mesmo sabendo-o cruel, chega à porta do Castelo, como no romance de Kafka, e é avisado de que não pode entrar. Tal devir burocrático-institucional é como máquinas fascistas operando dentro dos seres humanos. Sempre a lógica “faço isso se fizer aquilo”, sendo que o isso e o aquilo não têm fundo, como os cadafalsos da Revolução Francesa idolatrados por Joseph de Maistre. O amor de Cartago foi embora em meio a essas inúmeras papeladas do regime burocrático imposto por seu amante.

E elas conversavam assim, sobre isso tudo e sobre nada disso. Elas conversavam como a gente conversa agora. Não necessariamente o mesmo assunto, mas o que interessa é essa nossa conversa, bem assim, sem querer mais nada. Na antiga fila do metrô, que por agora está acabada, elas continuam de pé para conversar. Talvez como nós, por aporias, como Sócrates ao dizer como chegar ao Conhecimento (Menon). Na verdade, tivemos até agora a ilustre companhia de Deleuze a nos ajudar nessa nossa conversa. Ainda que tenhamos que dizer como ele sobre Proust: escreve sob aporias, atacados pelos signos – é um desvendador de signos, dos hieróglifos que se escondem por toda parte e que nos atacam sem muitas vezes podermos perceber. Não uma mentalidade “apriorística”, que já sabe aonde chegar bem antes de começar qualquer busca, qualquer pesquisa. Por aporias: por isso podemos dizer que as duas moças desenvolveram toda uma Teoria do Beijo enquanto falavam de Kafka, da Guerra Fria, de Carlos Lacerda, dos vestidos e, por que não, do ser? Pois bem, Deleuze, com suas máquinas, com seus vestidos e com o que quer que seja, talvez possa nos deixar agora. Agora é hora dele não participar tanto do diálogo e escutar mais um pouco. Vamos deixar, daqui um pouco, Camões voltar. Porém vamos, antes, deixar Creta e Cartago falar. Sua deliciosa Teoria.

O beijo rápido ou o beijo longo? Ao beijo rápido se sucede toda uma série destes, não necessariamente só na boca, como pescoço, ouvido, nuca, e por aí vai. O longo, estático, conhece no máximo as bordas, os lábios, e enrola e estica a língua muitas vezes, fazendo o papel de degustador, provando cada pedacinho da comida, cada miligrama do vinho ou da bebida. Mas qual o gosto da boca, da língua e dos lábios? Ao contrário da pele que não nos importamos tanto com o sabor – sempre o mesmo contínuo, embora ainda se possa afirmar que existe um sabor de pele específico, porém não tão múltiplo como o da boca –, o beijo na boca como que reproduz de outra forma os diferentes sabores que experimentamos a partir deste órgão. O beijo rápido é mais um beijo de descoberta, às vezes de descoberta e redescoberta, fazendo-se e refazendo-se, por isso precisa tanto se refazer entre uma volta e outra à boca nas partes do corpo que estão mais próximas, atrelando ao sabor o cheiro, o toque, e trazendo assim novos elementos para quando os lábios novamente se tocarem. Essa tarefa não tanto de explorador, mas de conquistador, é o trabalho de muitos jovens nas fases iniciais de sua vida sexual, quando o mero beijar – e quanto mais bocas diferentes melhor – se constitui quase como uma tarefa que subsiste por si mesma. Como se esses diferentes beijos os gabaritassem para o Beijo, tornando-os mestres nessa arte, que quase por si só, também, consistiria numa espécie de título de propriedade que ratificaria a labuta por vezes árdua do conquistador.

Um beijo também é uma espécie de título de propriedade. Tal é o poder desse ato que também pode servir como mera ilusão. Dou-lhe um beijo, um afago – e nada mais. Gosto tanto de você que, quem sabe num outro mundo ou numa outra vida, a gente poderia de fato se amar. Nós selamos esse sentimento com um beijo, um aperto de mão mais prolongado, mas nada mais sai daí. É uma espécie de namoro perfeito, feito do mais amplo consentimento, mas que nunca se sagrará como realidade. O beijo de título de posse vira carta de intenções. Existe essa modalidade também: “se eu te der um beijo, lhe mostrarei tudo o que sou capaz”. Sempre, claro, com as melhores intenções. O beijo como porta de entrada para todas as espécies de amor – tudo poderá advir daí. O resto é estupro, consentido ou não. Pois há casais que, às vezes ficam um tempo considerável juntos, e não chegam a saber propriamente o que é beijar. É quase como estar com uma criancinha e não brincar, ou um cachorro e não afagar. São amores frios, mas por vezes advindos da mais premente necessidade, de calores inimagináveis. Transam e é só. O beijo, o aperto de mão, aparecem aqui e ali quase que como acessórios. Acessórios como as roupas que poderiam nem ser usadas quando tais tipos de casais estivessem juntos. Mas também há os casais que transam como se estivessem de roupa, nunca atingem determinado grau de intimidade ou simplesmente gozam, com maior ou menor intensidade, como se fosse um dever de ofício ou uma tarefa diária. É porque não aprenderam a se beijar de verdade. E talvez passem a vida toda sem beijar ninguém, transando ou não transando, casando ou não.

Esse de fato era o assunto que elas se concentraram por mais tempo, elaboraram toda uma teoria, deram diversos exemplos, confrontaram fatos. Não nos cabe aqui descer às suas intimidades, mas podemos falar do poema que Creta não recebeu. Ela acabou como a encarnação de um anjo numa visita noturna que nunca ocorreu. Ela estava morta. Pelo menos é essa a interpretação que vem agora na minha cabeça devido ao contexto, ou seja, ao fato de quem escreveu ter dado o poema a pessoa. Mas ele também pode ter sido escrito com outra intenção, às vezes como uma espécie de virtuosismo – imitar o estilo de Camões (claro, usando um estilo bem outro, moderno) – para no fim pertencer a serie imensa que percorre toda a lírica portuguesa, dos poetas quinhentistas ao fado e, por que não, deste ao pagode. Este é indubitavelmente um sucesso porque os “fados de amor” são próprios da alma portuguesa e sugerem um estudo avançado deste legado da colonização lusitana em nosso país. Caso não se queira fazer um pagode, qual o problema de fazer um soneto camoniano? Só porque é triste, maneirista, não é algo válido? Enfim, existem outros estilos também inspirados no poeta-referência da língua portuguesa, um que Creta não pode ler, ocupada que estava talvez numa tarefa mais complexa, sua teoria do beijo. Talvez seu amante falaria assim sobre sua Teoria:

Como na pele emolientes, calmantes,

para enfrentar os tórridos calores das terras ignotas,

com os nervos em frangalhos como a roupa puída e rota,

o amante retempera a alma e se faz amante.

Não mais as noites em vigília, sufocantes.

Não mais o demorar-se em tantas bocas,

aqui e ali, que ao falarem de amor fazem-se roucas.

Encontrei-me contigo, Amor, ainda como feroz amante.

Enfrentar o som!, que se espalha

seguindo o vento norte.

Canção de desterro e de martírio.

Pelas bárbaras praias, ventania e morte.

O verbo se faz contra o suplício

do poeta que não mais falha.

Os versos heróicos também não precisam ser retirados apenas dos Lusíadas, como no outro exemplo as musas etéreas de Dante podem ser mescladas aos Amores de carne e osso de Camões. E por aí se vai, talvez com muita tecnologia para um encontro casual na fila do metrô, na padaria, num táxi que se arranja de improviso, numa esquina comendo lanche, numa loja, numa rua, numa praia, numa caminhada qualquer – pouco importa. Afinal, de misturas, nem Rio, nem Janeiro, nem deusas pagãs ou santas católicas. Nem santas, nem prostitutas, amores nem tão frustrados e poemas nem tão improvisados. Talvez, uma coisa e outra, ou uma coisa ou outra – a barbárie triunfante? –, no Rio de Janeiro, de Creta e Cartago.

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